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Escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III e ignorante por conta própria. Autor de doze livros, entre eles três romances, todos publicados pela ed. Record. Site: www.felipepena.com

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Pesquisas e palestras sobre jornalismo

Programação do GP de Teoria do Jornalismo da Intercom

Coordenação geral e curadoria: Prof. Felipe Pena

4 de setembro
- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
O jornalismo e a construção social da realidade
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 4/9 das 14h00 às 16h00 -


A teorias do jornalismo impresso e a construção do cotidiano urbano
Wellington José de olivbeira Pereira(UFPB)

O Brasil na Imprensa Argentina – Alguns Sentidos pregnantes no Discurso do Clarín Sobre a Violência
Marcelo da Silva(USC)

O Pensamento Jornalístico Português nos alvores dos anos quarenta: o contributo do Boletim do Sindicato Nacional dos Jornalistas (1941-1945)
Jorge Pedro Almeida Silva Sousa(UFP), Liliana Mesquita Machado(UFP)

As Notícias Vistas pelo Avesso: os Homicídios Femininos sob o Olhar dos Newsmaking
Sandra Raquew dos Santos Azevêdo(UFCG), Roberta Kelly de Sousa Ramos(UFCG)

A Grande Imprensa e o Poder: A Construção Social da Realidade no Embate Globo X Record
Lauro Almeida de Moraes(UESC)

A Construção Discursiva dos “fatos” pela mídia: um Estudo Enunciativo sobre o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) de Lula
Rafaela Queiroz Ferreira Cordeiro(UFPE), José Ricardo Rodrigues de Mello Filho(UNICAP)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Cobertura política, espaço público e humanização do jornalismo
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 4/9 das 16h00 às 18h00 -


Humanização e desumanização no jornalismo: algumas saídas
Jorge Kanehide Ijuim(UFSC)

Quando Lasswell encontra a cobertura eleitoral da FSP: uso do "coeficiente de desequilíbrio" na análise empírica da produção jornalística da FSP em coberturas de campanhas presidenciais do PT e PSDB
Emerson Urizzi Cervi(UEPG)

As teorias do jornalismo e a leitura do espaço público
Tarcineide Mesquita Galdino(UFPB), Wellington José de Oliveira Pereira(UFPB)

Jornalismo: identidade e contribuição ao agir político
Gabriel Nogueira Linhares Marquim(UFPE), Heitor Costa Lima da Rocha(UFPE)

Jornalismo, ética e humanização: reflexões sobre a tríplice tessitura
Criselli Maria Montipó(UFSC)

Direitos humanos? A uma parte da imprensa brasileira, depende...
Wagner Barge Belmonte(Fapcom)



5 de setembro
- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
O jornalismo literário e as novas possibilidades de carreira para os jornalistas
Coordenador(a): Monica Martinez (FIAMFAAM), Coordenador(a): Felipe Pena de Oliveira (UFF)
Dia 5/9 das 14h00 às 16h00 -


O Perfil dos Jornalistas Freelancers da Cidade de São Paulo: mudanças no mundo do trabalho do jornalista
Rafael do Nascimento Grohmann(USP)

Possibilidades de aplicação do conceito de carreiras profissionais nos estudos sobre jornalismo
Fábio Henrique Pereira(UnB)

O Webjornalismo e a Sociedade da Informação: Os Impactos Sobre o Fazer Jornalístico e as Empresas de Comunicação
Ivo Henrique França de Andrade Dantas Cavalcanti(UFPE)

Ensino de jornalismo: lições da história para além do empirismo
Alice Mitika Koshiyama(ECA-USP)

Jornalismo Literário em Ambientes Digitais: estudo de caso da produção da jornalista Eliane Brum
Monica Martinez(FIAMFAAM)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Discursos jornalísticos e estudos etnográficos
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 5/9 das 14h00 às 16h00 -


O Etnógrafo e o Jornalista: O Olhar e a Escuta como Ferramentas de Trabalho
Karina Galli Fraga da Silva(UFMT)

Credibilidade e capital social no jornalismo: aproximações entre conceitos de Tobias Peucer e Pierre Bourdieu
Cândida de Oliveira(UFSC)

O discurso jornalístico como dispositivo de subjetivação
Carolina Pompeo Grando(UFSC)

A criança leitora imaginada por Zero Hora
Thais Helena Furtado(UFRGS)

A Contribuição de Metodologias de Construção do Discurso Histórico à Prática do Jornalismo
ANDRÉA MOREIRA GONÇALVES DE ALBUQUERQUE(Ufal)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
O jornalismo investigativo e a construção das fontes
Coordenador(a): Monica Martinez (FIAMFAAM)
Dia 5/9 das 16h00 às 18h00 -


Jornalismo sem Investigação: flertes com o “Homem Cordial”
Adriana Maria Andrade de Santana(UFPE)

As Fontes de Informação e a Construção Social da Realidade: Aproximando Conceitos
Marina Chiari Lima Mendes(UNAMA)

Jornalismo local: a ética da convicção e a ética da responsabilidade na proximidade com as fontes
Carla Algeri(UFSC)

Vazamentos e vulnerabilidades: o Caso Wikileaks à luz do direito à informação
Paula Casari Cundari(Feevale)

Jornalismo investigativo: desafios, impasses e oportunidades na era digital
Samuel Pantoja Lima(UFSC)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Jornalismo digital e os estudos culturais na Teoria do Jornalismo
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 5/9 das 16h00 às 18h00 -


Jornalismo Cultural e o Fandom
Cristiane Henriques Costa(UFRJ), Diana Damasceno(UFRJ)

O Infotenimento no Webjornalismo: uma Reinterpretação dos Critérios de Noticiabilidade
Carlysângela Silva Falcão(UFPE)

Jornalismo e conhecimento sob a perspectiva da participação de leitores online
Vanessa Hauser(UFSC)

Jornalismo amador: proposta para definir as práticas jornalísticas exercidas pelo público em ambientes interativos
Leonel Azevedo de Aguiar(PUC-Rio), Adriana Barsotti(PUC-Rio)

ffwMag! em: uma Articulação Teórica em Torno das Materialidades da Comunicação
Nayana Gurgel de Moura(UFRN)



6 de setembro
- IJ - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Jornalismo e conhecimento
Coordenador(a): Monica Martinez (FIAMFAAM)
Dia 6/9 das 10h00 às 12h00 -


O Jornal como notícia: vozes da comunidade interpretativa
Bruno Souza Leal(UFMG)

Laboratório: espaço de pesquisa empírica em jornalismo
Márcia Marques(UnB)

Narrativa Jornalística e Memória: A cobertura Noticiosa dos 30 Anos de Aparição Pública da Aids
Carlos Alberto de Carvalho(UFMG)

A Opinião Pública e o Assassinato da Empresária Marcela Montenegro
Luana Amorim Gomes(UFC)

Dinâmica do Texto Jornalístico: Montagem das Imagens Fotojornalísticas e Discursos de Poder
Laís Santoyo Lopes(PUC-SP)

“A Alegoria da Caverna” de Platão a Comunicação Social Contemporânea.
SHIRLEY ARAUJO DE OLIVEIRA(UNEF)



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

As frases não ditas são eternas - parte II

Crônica não é conto de fadas. Você jamais encontra o sapato, Berenice. No máximo, um paletó por cima dos ombros. O tintureiro no dia seguinte. Um belo café no sábado de manhã.

Quem precisa de fadas?

O paletó é muito melhor do que o sapato. Pense bem! Pés descalços ou o frio nas costas? Capa e espada ou terno e gravata? Cara de anjo ou barba de homem? Essa história de príncipe encantado foi criada pra confundir os hormônios femininos. Basta lembrar de um simples detalhe: o sujeito veste um collant apertado com shortinho balonê. Entendeu? Shortinho balonê, minha querida! Que é isso? Onde está a credibilidade?

Você desfilaria pela Avenida Rio Branco com alguém assim? Sairia pra jantar no Garcia & Rodrigues? Tomaria um chope no Cervantes? E a galera da Merza, o que diria? Tudo bem, você não vai mais a São Paulo. Pânico de avião, preguiça da rodovia. Então, imagine. Apenas imagine aquela mesa lateral, perto do balcão, cheia de marias-teclado falando do shortinho balonê. Sim, elas gostam. É verdade. Até já babaram naquele menino de um metro e sessenta. (Ele é carioca, Berenice.) Eu sei, não importa. (Tem barba.) Claro, é pra compensar. A altura e o shortinho. E, de vez em quando, o casaco estiloso, comprado no Shopping Leblon. Volte para o paletó, minha querida. Esqueça o resto. Principalmente os sapatos.

Berenice acordou cedo. O sonho ainda estava quente, real. Shortinho, sapato, paletó, príncipe. Uma névoa de pensamentos sem sentido. O enredo surrealista. Um filme de David Lynch. Se tivesse lido Freud, talvez pudesse interpretar aquelas ideias fora de lugar. Lembraria do deslocamento, um conceito vago, pilar do pensamento freudiano sobre os sonhos. A via régia para o inconsciente. A forma mais eficaz de acesso a seus recalques, suas angústias. Meio pretensioso, né? Ou não.

- Que pena, não sou psicanalista – pensou, em voz alta, os olhos ainda se acostumando com a luz que entrava pela janela.

- Todos somos. Os jornalistas mais, os psicólogos, menos – respondeu Pastoriza, em pé, na frente da cama, segurando a bandeja com o café da manhã.

Por algum motivo desconhecido (ou recalcado), Berenice vestia apenas uma camisa listrada de manga comprida, sem os três botões de cima, que pareciam ter sido arrancados com violência, deixando fiapos de linha em seu lugar. Ela se acomodou no meio da cama, sentada, pernas cruzadas em flor de lótus, as pontas da camisa cobrindo a parte interna das coxas. Na bandeja, havia apenas um café preto, duas torradas com as bordas enegrecidas, manteiga, geleia de uva e um suco de caixinha, daqueles com mistura de sabores.

- Minha torradeira é velha. A casca sempre fica assim: completamente queimada. Vou cortar pra você.

- Não precisa. Tá ótimo. Adoro pão bem passado – ela disse, ajeitando as mangas.

- Pelo menos a geleia é muito boa. Francesa. Foi presente de uma psicanalista de Bordeaux. Ela e o marido têm um vinhedo e também produzem essa geleia maravilhosa.

- Geleia e psicanálise. Boa redundância. Eu me interesso pelas duas.

- Tá querendo mudar de profissão? – perguntou Pastoriza.

- Não. Só tentava entender o sonho que tive. Queria saber o que vai me acontecer.

- Nesse caso, recomendo uma cartomante. A psicanálise não vai te ajudar muito.

- Será? A parte do café, por exemplo... Eu previ. Tava no sonho.

- Essa é fácil. São restos diurnos. Capítulo sete da Interpretação dos Sonhos. Posso dizer que você projetou o dia de hoje com base na noite de ontem.

Papinho brabo. A história da geleia e da torradeira estava muito melhor. Berenice começava a achar que a conversa freudiana infanto-juvenil acabaria com as boas lembranças da noite anterior. Talvez o sujeito fosse mesmo um Don Juan genérico, o que nem seria problema. Tratá-la como ignorante é que enfraquecia o cara. Ou, pelo menos, a imagem que tinha do cara. Onde estava o cronista do jornal? Cadê o autor daquelas metáforas precisas, das metonímias poéticas, das frases simples que expressavam a laboriosa tradução da complexidade. Sem didatismo, sem arrogância, sem subestimar o leitor. Onde estava? Onde? Onde?

Meu café da manhã por uma crônica de Antonio Pastoriza!!!

A geleia francesa era muito boa mesmo. Poderia até compensar a decepção. Um chocolate belga e a serotonina atingiria níveis sexuais. Berenice acostumara-se às compensações. Colégio católico do interior com púberes em fraldas, faculdade pública com garotos mimados da zona sul, redação de jornal com velhos barrigudos que agiam como púberes em fraldas e/ou garotos mimados da zona sul. O chocolate ganhava de goleada. Belga, senegalês, australiano. Qualquer um. Na média, um chocolate valia mais do que mil palavras com testosterona.

- Taí um clichê verdadeiro – ela disse, na entropia do raciocínio.
- Qual? A interpretação dos sonhos ou o café na cama? – perguntou Pastoriza.
- Eu estava pensando em chocolate.
- Claro. Foi bom pra mim também.

A risada cúmplice confirmou os clichês e as repetições.

Pastoriza abriu uma caixa de Sonhos de Valsa. Nova confirmação.
Então, o cara tinha bom humor! Quantos pontos você ganhou com aquela resposta, Antonio!? Foi-se o psicanalista arrogante e voltou o cronista elegante. Até dessa rima pobre nós fizemos piada. E do sonho. E da cartomante. E da psicanálise. E do jornalismo. E da torrada queimada. E do papinho brabo. E da geleia francesa. E da sua colega de Bordeaux. E da minha paixão, que estava começando.

Ali, você aprendeu a receita. Nos anos seguintes, bastou manter a sagacidade. Você relevou meus gritos, minhas crises, minhas inseguranças. Sempre com uma palavra espirituosa, um comentário jocoso que me desarmava. Não precisou mostrar erudição ou aplicar suas técnicas do divã. Ou será que aplicou?

Não importa. Cada dia mais apaixonada, eu me recusei a ver defeitos. Só queria enxergar o ideal de homem que você encarnava. Culto, moderno, másculo, charmoso e, acima de tudo, bem humorado. Ele não pode ser tão perfeito, Berenice – diziam minhas amigas casadas, há muito mais tempo no mercado. Vocês não o conhecem como eu – respondia, acendendo a vela pro teu altar.

Acendi velas pro teu altar todos os dias.

Com você, nunca houve uma frase feita, uma repetição, uma rotina. Exceto as que faziam parte de nossos clichês, esses sempre cuidadosamente repetidos, até a exaustão, que era a nossa forma de não ser repetitivo, não ser rotineiro, não cair no sofá com o controle remoto nas mãos.

Você tinha o insensato dom da originalidade, Antonio. Você me surpreendia. Não mandava rosas, preferia margaridas, lírios e outras flores de nomes desconhecidos. Não escrevia cartas de amor, desenhava. Não comprava joias, esculpia meus anéis.
E quando eu disse que te amava, você não respondeu com o fatídico eu também.

Ponto pra você, Antonio. Arrependimento pra mim.

O que posso dizer? Há momentos (quase todos) em que prefiro a redundância. Por que você nunca disse que ...? Por quê? Por que você não disse, Antonio?

Por que não disse?


terça-feira, 26 de julho de 2011

O entretenimento como conceito de valor na literatura

Em recente polêmica envolvendo uma crítica da professora Beatriz Resende ao seu último livro, o escritor João Ximenes Braga desabafou: "Críticos de cinema e música entendem que há espectadores e ouvintes com desejos diversificados. Chegamos aos livros e, danou-se, os acadêmicos e certos críticos que sempre falam em ‘a literatura’ com artigo definido, como se houvesse um único cânone a ser seguido, não fazem cerimônia em dizer que o leitor que não os obedece é burro ou pouco exigente."


Braga pondera que, pela premissa da crítica brasileira, dificilmente haveria uma versão brasileira contemporânea de fenômenos de qualidade e popularidade como o inglês Nick Hornby e o americano David Sedaris. Segundo ele, certos críticos locais os matariam no nascedouro e trucidariam sua linguagem simples, pois negam a possibilidade de uma literatura que não seja dirigida a uma casta de leitores que habita uma torre de marfim.

Concordo com ele. É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao experimentalismo linguístico.

Isso não significa, no entanto, que não sejam boa literatura. Pelo contrário, alguns são obras de arte de relevante valor. Só não são acessíveis. Eu, por exemplo, leio esses autores, mas tenho doutorado em Literatura. Aliás, isso é parte do problema: a Academia e uma elite leitora convencionaram que só tem valor aquilo que está na elipse, que força o leitor a encontrar sentido onde poucos conseguem enxergar. Por essa premissa, o que é fácil de ler não tem valor literário. E quem discorda dela é taxado de superficial.

Para os doutores da Academia, entreter significa passar o tempo. É um termo pejorativo, aviltante, usado para diminuir uma obra. Mas não é o que ele significa para quem se envolve com um livro e não consegue largá-lo. Em literatura, entretenimento é sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo.

Apesar da tão apregoada diversidade da prosa nacional, a crítica acadêmica dividiu-a em pólos antagônicos. Quem não é moderninho, é superficial. E ponto final. Essa é a generalização leviana que produz distorções, afasta leitores e joga sua névoa sobre o mundo literário.

Em um mea culpa corajoso, o crítico Tzvetan Todorov concluiu: “A história da literatura mostra bem: passa-se facilmente do formalismo ao niilismo ou vice-versa. (...) Numerosas obras contemporâneas ilustram essa concepção formalista de literatura; elas cultivam a construção engenhosa, os processos mecânicos de engendramento do texto, as simetrias, os ecos, os pequenos sinais cúmplices. (...) Para essa crítica, o universo representado no livro é auto-suficiente, sem relação com o mundo exterior.”

Outro crítico de renome, o professor Émile Faguet, titular da cadeira de Literatura Francesa na Sorbonne, também vai pelo mesmo caminho no ensaio A arte de ler, quando dá a um capítulo o título de escritores obscuros: “Esses autores desfrutam sempre de enorme reputação. Têm um bando e um sub-bando de admiradores. O bando é composto por aqueles que fingem entendê-los, o sub-bando por aqueles que não ousam dizer que não os compreenderam e que, sem os lerem, declaram que são primorosos”

Mas também há exemplos mais antigos. O irlandês C.S. Lewis, que morreu em 1963, dizia que a grande leitura não exige perícia ou força; exige, ao contrário, desarme e paixão. Lewis era um defensor do leitor leigo, “comum”, ou seja, “aquele que lê sem nada esperar, que lê simplesmente porque o livro o agarra e ele não consegue mais largá-lo”

É em busca desse leitor que vai a literatura que considera o entretenimento como valor estético. E não custa repetir: entretenimento não é passatempo, é sedução pela palavra. É um conceito ao qual se deve atribuir fundamento artístico. É um termo que não pode ser rotulado ou tratado com preconceito. É um gênero cuja boa tecelagem está entre as mais difíceis e trabalhosas.

Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. A escrita simples não é superficial: é a tradução laboriosa da complexidade. Escrever fácil é muito difícil.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Crônica no Jornal do Brasil - 15/7/2011

A saudade é minha culpa


As frases não ditas são eternas.

Não era o que eu queria dizer. Nem o que o ela teria dito. Mas já estava lá, escrito, como se fosse para nós. O que ficou de você em mim foram os fragmentos, polímeros, fractais, resíduos.

E o teu queixo no queixo do meu filho. Teu genoma em cada livro. Tua face em cada linha. Teu sangue em cada frase. Minhas frases, tuas digitais, e teu queixo, teu texto. O que você lê agora é o que resta nos olhos do rufião. Sobrevivi a expensas de galanteador, mas não voltei a me encontrar. Depois de você, todas tinham o mesmo defeito: nenhuma delas era você.

Nunca nenhuma delas será você.

Os outros são nossos narradores. Não há fuga possível para o discurso alheio que nos constrói. Estamos à mercê dos advérbios que não queremos, dos adjetivos que não merecemos, dos pronomes que foram trocados (de propósito). Nossa história não nos pertence. Não temos tempo.

Tempo é expectativa. É o portão de ferro da angústia.

Mas se você estivesse aqui, tudo seria diferente!

Se você estivesse aqui, pela oitava e única vez, prometo que tudo seria diferente.

Se você estivesse aqui, eu ouviria os comentários sobre meu egoísmo, concordaria com as mudanças, aceitaria as críticas, não me importaria com a verdade.

Se você estivesse aqui, o teu egoísmo não seria necessário.

Se você estivesse aqui, alugaríamos um apartamento bem pequeno para que os desencontros acabassem se encontrando.

Se você estivesse aqui, chegaríamos no mesmo passo, enfrentaríamos a chuva, dividiríamos a capa e a marquise.

Se você estivesse aqui, comeríamos no mesmo prato, dividiríamos a carne, beberíamos o licor no copo de vinho.

Se você estivesse aqui, levaria teu avô ao médico, cuidaria do teu pai, educaria teu irmão e te daria um filho.

Se você estivesse aqui, arrumaria um quarto pra tua mãe, fingiria que gosto dela e ainda acreditaria nos elogios.

Se você estivesse aqui, dormiríamos até mais tarde, com a cortina fechada e o mundo lá fora, sem importância.

Se você estivesse aqui, passaria o creme nos teus pés depois de lixar tuas unhas pra te livrar da solidão.

Se você estivesse aqui, eu me sentaria na beirada da cama por duas horas, com o paletó fechado, enquanto você escolhe o vestido da festa.

Se você estivesse aqui, puxaria o zíper até o final das costas, deixando minha respiração no pescoço perfumado.

Se você estivesse aqui, sairíamos pela noite da cidade iluminada, veríamos o filme do cineasta desconhecido, descobriríamos um restaurante íntimo, escolheríamos o prato da casa, cruzaríamos a ponte e veríamos o barco pela proa.

E tudo mais. Tudo que você sempre quis:

Ouvir Indian Maracas, do Pelv’s. Dançar na batida do Bob Sinclair. Degustar o macarron da esquina. Ler a bíblia do Roberto Bolaño. Ver a exposição do Albuquerque Mendes. Assistir à montagem do Cyrano. Ir ao show do Radiohead e não se conter na quarta música da lista. I wish I were special.

Se você estivesse aqui, eu teria evoluído.

Mas você não está.

Quando foi embora, deixou-me a culpa e o atraso.


* Escritor, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense, Felipe Pena é autor de onze livros, entre eles três romances, todos publicados pela editora Record. Também trabalha como roteirista de televisão, coordena o Grupo de Pesquisas em Teoria do Jornalismo da Intercom e ministra oficinas de crônicas na Estação das Letras, no Rio de Janeiro. Tem dezenas de artigos científicos publicados no Brasil e no exterior, além de contos e ensaios em diversas coletâneas. Foi repórter da TV Manchete, comentarista da TVE-Brasil e sub-reitor da UNESA. É doutor em Literatura pela PUC-Rio, tem pós-doutorado em Semiologia da Imagem pela Université de Paris/Sorbonne III e é ignorante por conta própria. Contato: felipepena@globo.com

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O livro de contos de Marcio Renato dos Santos



Um autor em busca de tradução

Os homens sem alma não sorriem. Os homens sem alma carregam pastas. Os homens sem alma caminham pela Rua XV, em Curitiba, cidade que serve de cenário para os sete contos do livro de Marcio Renato dos Santos, cuja carreira no jornalismo e na crítica cultural já é conhecida em todo país.

O autor mora na capital paranaense e a expressão “homens sem alma” é cotidianamente repetida por ele, como um mantra, em suas conversas com amigos e colegas de redação. Duas informações que já seriam suficientes para identificar o teor autobiográfico de seus textos. Mas ele é ainda mais incisivo. O tom confessional começa no próprio título: Minda-Au foi a tradução que encontrou para a palavra dromedário quando tinha menos de uma ano de idade.

A partir desta palavra, ele diz que começou a se tornar Marcio Renato dos Santos. Ou seja, foi através da linguagem que começa a ter identidade. Ou, pelo menos, a buscar essa identidade. O que fica ainda mais evidente nas influências literárias de seus contos. Em “O espírito da Floresta”, por exemplo, o realismo fantástico o aproxima de uma determinada vertente da literatura latino-americana. Já em “De teletransporte nº 2”, Marcio subverte a pontuação, ignorando vírgulas e parágrafos, em um claro tributo a José Saramago.

Mas é no conto “Ali, agora”, o último do livro, que o autor se revela com mais intensidade, ao homenagear seu mestre, um escritor cujo nome não é mencionado. Só sabemos que ele morreu de câncer, com mais de sessenta anos. E que, além de habitar a mesma Curitiba, traduziu-a em palavras.

Minda-Au é o livro de um autor em busca da mais difícil das traduções. Seus contos ultrapassam a metalinguagem e as estratégias narrativas, pois não há nada mais complexo do que traduzir a si mesmo.

E é preciso muita coragem para tentar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um dos melhores livros de 2010



Os onze contos reunidos neste volume confirmam o gosto pela carpintaria estilística presente na literatura de João Anzanello Carrascoza. Entretanto, ao contrário de outros escritores contemporâneos, Carrascoza não tem na construção linguística o único objetivo de sua narrativa. Embora a preocupação com linguagem ocupe grande parte da obra, seu foco principal ainda é na precariedade da condição humana.

Este é o quinto livro de contos do autor, que também escreve para o público infanto-juvenil. Aliás, tal atividade parece ter forte influência nas histórias de Espinhos e Alfinetes, pois o olhar sobre a infância está presente em quase todos os textos. Carrascoza carrega na dramaticidade das relações entre pais e filhos de maneira poética, através de um encantamento peculiar, que é, ao mesmo tempo, sensível e preciso: “O pai voltou à sala, abotoado em seus silêncios. O menino sabia que era hora de não perturbá-lo, de só admirá-lo a ponto de se esquecer dele, num falso esquecimento”

Os contos de Carrascoza estão repletos de lirismo, mas não de sentimentalismo. Com muita habilidade, o autor consegue se equilibrar entre o ambiente onírico da fantasia e a dura percepção da realidade. Não seria exagero apontá-lo como um dos melhores contistas do país.