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Escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III e ignorante por conta própria. Autor de doze livros, entre eles três romances, todos publicados pela ed. Record. Site: www.felipepena.com

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O amor são duas solidões que se protegem


Ela ligou o rádio. O medo de ter medo de ter medo. Nina adorava o Renato Russo. Ouvia o dia inteiro, intercalando com a poesia do Rimbaud, os romances latino-americanos e a novela da Globo. Podia ser um recado personalizado se eu fosse capaz de entender. Bastava notar o aumento do volume no meio da música, sempre na mesma parte: o salva-vidas não está lá porque não temos.

Não notei. O salva-vidas não estava lá.

No primeiro ano, grudamos o couro um no outro até fazer ferida. Tínhamos que recuperar o tempo perdido. Outra música do Renato, eu sei. Mas nessa época ouvíamos Radiohead, Los Hermanos, Beatles e até nos divertíamos com a Lady Gaga, dançando seminus na varanda só pra escandalizar os vizinhos.

Nas noites calmas, as peel sessions de P J Harvey e o remix do Yolatengo disputavam espaço com o velho Miles Davis. Bebíamos o Chateau Laplanche no copo de geleia mesmo, mas só após a decantação.

- Deixa o vinho respirar, meu amor.

Os finais de semana eram todos prolongados. Nina chegava lá em casa na quinta e só ia embora na terça. Vida de casado, eu achava. E continuei achando. Ela separou metade das gavetas do closet, transferiu minhas camisas para o quarto de hóspedes e hospedou os sapatos no lugar da coleção de fitas VHS, devidamente catalogadas no armário da biblioteca. Bora digitalizar esse negócio, Antonio!

Concordei.

Nem o que havia de mais perturbador na minha rotina intelecto-urbana era um estorvo. Pelo contrário. Eu gostava dos jogos infantis, das interrupções no meu trabalho, do raciocínio perdido. Há uma certa sedução na ingenuidade. Ou na crença na ingenuidade.

Nina preparava pequenas surpresas em efemérides do calendário judaico-comercial-cristão. Na Páscoa, separou cascas de ovos e pintou-as delicadamente como se fossem obras astecas, deixando-as em um cesto na porta do meu escritório. No Natal, fez um imenso cartão em forma de mosaico com fotos de nossa viagem pela Europa. No meu aniversário, construiu uma bandeja para o notebook, acompanhada de uma proteção de tela com o rosto do incrível Hulk. Você é meu Bruce Benner, dizia, estimulando raios gama por métodos pouco ortodoxos.

E voltava pra minha biblioteca, tentando sorver tudo que encontrava nas prateleiras. Literatura russa, sociologia americana, história francesa, filosofia alemã. Só parava pra ver a novela e o paredão do Big Brother.

Ela conseguia fazer essa mistura entre versos alexandrinos e cantigas de ninar (incluindo o trocadilho). Como se a Silvia Plath e uma líder de torcida habitassem o mesmo corpo. Num dia líamos A superação da metafísica, do Heidegger. No outro, dançávamos o Ilariê da Xuxa. E, porra, eu morro de vergonha desse alemão pós-niilista. Prefiro o concretismo da loura, embora jamais tivesse tempo de acompanhar sua pedagogia. Além de não ter nenhum tesão nas paquitas.

Meu negócio é a Nina mesmo.

Seria injusto dizer que metade das minhas crônicas foi inspirada na sua transcendência eslavo-tupiniquim-televisiva. Era muito mais que isso. Todas as crônicas, todos os livros, todos os verbos, advérbios, adjetivos, concordâncias e discordâncias da minha lexicografia primária foram criados pelo dicionário de Nina. Tudo estava nela. Sem exagero. Podem acreditar: não tô pagando paixão. Apenas consignando um fato concreto, lúcido, racional.

Ainda assim, não fui capaz de perceber sua angústia. Não consegui dançar nas entrelinhas. Não olhei pra cima. Não cavei a terra. Não joguei as cartas do tarô. Não li o poema do Carpinejar.

Descobre-se um amor na iminência de perdê-lo.


Além de jornalista e escritor, Felipe Pena é doutor em Literatura pela PUC, pós-doutor em semiologia pela Sorbonne III e professor da UFF. É autor de 12 livros, entre eles os romances Fábrica de Diplomas, O marido perfeito mora ao lado e O Verso do cartão de embarque.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ainda congelados



A resenha de João Cezar de Castro Rocha sobre o livro “Geração Subzero”, publicada na última edição do Prosa & Verso, pode ser lida com uma mistura de alívio e apreensão por aqueles que apreciam a literatura de entretenimento no Brasil. Começo pelo alívio: seria uma enorme incoerência que uma coletânea de autores congelados pela crítica fosse elogiada justamente por um crítico de ofício. Caso isso acontecesse, que credibilidade ela teria junto aos leitores?

Entretanto, apesar de reconhecer méritos na crítica de Rocha, também devo apontar seus equívocos. O primeiro deles está na metodologia. Em vez de se debruçar sobre todos os contos da coletânea – como fez Felipe Charbel na resenha sobre a revista Granta – Rocha dedicou mais da metade de suas linhas aos conceitos expressos na introdução do livro. Ao considerar a conceituação anacrônica, argumentou que ela se apoia em um falso dilema entre narrativa e experimentação, pois, segundo ele, “a novidade mais relevante da literatura brasileira refere-se à superação desse falso dilema.”

Ora, a premissa em si já traz uma contradição: afinal, se o dilema é falso, como a sua superação poderia ser relevante? O fato, no entanto, é que o dilema é verdadeiro e ainda não foi superado. Basta observar a produção literária contemporânea para perceber que boa parte dos autores incensados pela crítica universitária continua refém do experimentalismo, sem a preocupação de construir personagens e tensões, conforme também constatou Felipe Charbel em sua resenha sobre os contos da Granta brasileira.

Aliás, o poder da crítica universitária é outro tema levantado por Rocha que o leva a uma contradição. Ou melhor, a um ato-falho. Embora afirme que tal poder deixou de existir há décadas, o crítico vale-se de sua posição acadêmica para decretar que a coletânea “Geração Subzero” deveria ter sido publicada sem qualquer reflexão. Ou seja, ele sugere que o entretenimento dispensa o diálogo com o pensamento sobre a literatura.

Paro por aqui. Um organizador de coletânea com responsabilidade deve parabenizar o crítico pela disposição em analisar textos que são estranhos ao seu universo de estudos. Contudo, ele também não pode deixar de se surpreender com a disparidade de métodos do mesmo crítico em suas análises. Ou, para aplicar o clichê que tanto o incomoda, com a utilização de dois pesos e duas medidas, conforme se pode depreender deste pequeno trecho do texto publicado recentemente por Rocha em um jornal paulista: "No espaço de uma resenha não posso fazer justiça aos excelentes 20 textos escolhidos (para a Granta)."

A pergunta que faço é simples: pode-se fazer justiça aos 20 textos escolhidos para a Geração Subzero através da análise de apenas quatro? Isso sem mencionar que tal análise foi feita a partir de preceitos formalistas, observando-se erros de revisão e estrutura linguística, sem levar em conta os enredos.

 O professor Rocha já conquistou seu espaço na academia e na crítica com méritos e louvor. É um estudioso celebrado, com obras importantes e participações em eventos de destaque, como a FLIP e as bienais do Rio e São Paulo. O próximo passo, porém, exige que se dedique a aprimorar a capacidade de se despir de seus preconceitos com a literatura de entretenimento. No fundo, é o que importa, pois crítica não pode ser sinônimo de descaso com nenhum gênero literário.

Mesmo que seja apenas para congelá-lo e manter o alívio dos leitores.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Resenha do livro Minda-Au


Um autor em busca de tradução



Os homens sem alma não sorriem. Os homens sem alma carregam pastas. Os homens sem alma caminham pela Rua XV, em Curitiba, cidade que serve de cenário para os sete contos do livro de Marcio Renato dos Santos, cuja carreira no jornalismo e na crítica cultural já é conhecida em todo país.

            O autor mora na capital paranaense e a expressão “homens sem alma” é cotidianamente repetida por ele, como um mantra, em suas conversas com amigos e colegas de redação. Duas informações que já seriam suficientes para identificar o teor autobiográfico de seus textos. Mas ele é ainda mais incisivo. O tom confessional começa no próprio título: Minda-Au foi a tradução que encontrou para a palavra dromedário quando tinha menos de uma ano de idade.

            A partir desta palavra, ele diz que começou a se tornar Marcio Renato dos Santos. Ou seja, foi através da linguagem que começa a ter identidade. Ou, pelo menos, a buscar essa identidade. O que fica ainda mais evidente nas influências literárias de seus contos. Em “O espírito da Floresta”, por exemplo, o realismo fantástico o aproxima de uma determinada vertente da literatura latino-americana. Já em “De teletransporte nº 2”, Marcio subverte a pontuação, ignorando vírgulas e parágrafos, em um claro tributo a José Saramago.

            Mas é no conto “Ali, agora”, o último do livro, que o autor se revela com mais intensidade, ao homenagear seu mestre, um escritor cujo nome não é mencionado. Só sabemos que ele morreu de câncer, com mais de sessenta anos. E que, além de habitar a mesma Curitiba, traduziu-a em palavras.

            Minda-Au é o livro de um autor em busca da mais difícil das traduções. Seus contos ultrapassam a metalinguagem e as estratégias narrativas, pois não há nada mais complexo do que traduzir a si mesmo.

E é preciso muita coragem para tentar.