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Escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III e ignorante por conta própria. Autor de doze livros, entre eles três romances, todos publicados pela ed. Record. Site: www.felipepena.com

terça-feira, 29 de novembro de 2011

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O amor nos tempos de Cazuza (a pedidos, publicado pela segunda vez no Jornal do Brasil de hoje)

O amor nos tempos de Cazuza
Felipe Pena

Cazuza queria a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. Renato Russo citava Camões e o fogo ardia aos olhos do público, nítido, visível, contrariando o poeta português. Nada tão diferente, nada tão parecido. Porque assim é se lhe parece, concluiria Pirandello, na frase que já virou clichê.

Minha amiga Berenice também ouviu/leu todos esses caras, influenciada pelo pai, um tal de Racine. Mas, nos últimos dias, anda desiludida com os escritores. Acha que são seres que não aparentam ter amado e, portanto, estariam incapacitados para falar de amor.

Ah, Berenice! Leia Pirandello novamente. De que aparências você está falando? Sua mãe não lhe ensinou que a boneca Emília era real? E seu pai não falou sobre o Titus? É o imaginário que constitui a realidade do escritor, não o seu cotidiano. Esqueça as biografias, os relatos jornalísticos e todas as narrativas com pretensão de verdade. O que você procura está em outro lugar.

E o que é o amor, Berenice? Pergunta difícil, eu sei. Freud tentou responder, Jung também, Lacan idem. E toda uma estirpe de supostos cientistas da alma. Mas quem se importa com eles? Olhe pra você, que tanto critica as aparências. O que lhe parece? Diz aí, Berenice!

O beijo de parede, a pele quente, o perfume no suor, o cabelo puxado até o dorso? É isso o amor, Berenice? Então, o que é? A umidade, os planos, as palavras, o cubo mágico, a cumplicidade? É isso?

Uma caminhada pelo Pére Lachaise, a Carmen de Bizet, o chope do Jobi? Ou a noturna de Chopin? Os diálogos do Woody Allen, o Jim Morrison improvisando em The end, o último parágrafo de Cem anos de Solidão, a tapioca da baiana no Nativo, os jardins do Museu Rodin, o Tom Jobim sussurrando a canção que eu fiz pra te esquecer, a rede social em que trocamos segredos, teus olhos virando a página de um manuscrito? O que mais pode ser, Berenice?

Você não é uma discípula de Parmênides ou de São Tomé. Não que ver para crer. Não quer o real estereotipado. Seus amores invertem o axioma: as aparências desenganam, pois é a fantasia que move o desejo, que passa o creme no corpo, que usa o espartilho.

A mesma fantasia inscrita no livro que ele autografou. Aquele, lembra? A leitura na cama, cortando as frases, fazendo anotações nas bordas. A leitura nas entrelinhas, na margem, no rosto. A leitura em movimento. E uma Berenice trêmula, ofegante, urgente, roendo as unhas da mão esquerda e lembrando de tudo que, naquele momento, lhe parecia amor.

O amor na varanda, de madrugada, com o som alto e os vizinhos ruborizados. O amor no sofá. O amor de conchinha. O amor plural, embora singular no endereço. O amor de quem troca os pronomes e escreve uma crônica pra você. O amor de um escritor, para quem nada é o que parece, e cujas frases saem tortas e embargadas pela tua ausência.

Nosso amigo Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazju, transformava o tédio em melodia. E aí estava uma boa definição. O amor, Berenice, somos nós, na batida, no embalo da rede. Matando a sede na saliva.

E tudo mais que houver nessa vida.


• Felipe pena é jornalista, escritor, psicólogo, doutor em Literatura pela PUC, com pós-doutorado pela Sorbonne III, e professor da UFF. É autor de 11 livros, entre eles o romance “O verso do cartão de embarque.”

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Queremos o Rio de Janeiro fora do Brasil (ou "E se fosse com os gaúchos")

Queremos o Rio de Janeiro fora do Brasil
Felipe Pena *


Imaginem se as perdas com os royalties do petróleo fossem do Rio Grande do Sul? Não duvido que, em poucos minutos, os gaúchos organizariam uma revolução e proclamariam a independência do estado. Até consigo imaginar as barricadas no Palácio Piratini, as trincheiras organizadas por barbudos com lenço vermelho no pescoço, o chimarrão queimando durante a noite e os generais do terceiro exército organizando suas tropas para proteger o levante.

Se fosse no Rio Grande, os facões sairiam das bainhas, o charque assaria nas fogueiras, Garibaldi reencarnaria em algum imigrante italiano, o Veríssimo faria crônicas arrebatadoras, a torcida do Inter fecharia as fronteiras e o Renato Borghetti tocaria o hino farroupilha com sua gaita ponto. Se fosse no Rio Grande, haveria luta. Mas a perda é do Rio Pequeno, o Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro começou a ficar pequeno na década de 1960, com a mudança da capital para Brasília e, de lá pra cá, a situação só piorou. Perdemos na política, perdemos na economia, perdemos na segurança, perdemos na referência. Ah, sim, continuamos como a capital cultural do país, mas dividimos esse royalty com a violência, sempre pontificada mundo afora como nossa maior mazela. Sem falar em outros problemas graves, como a falta de saneamento, a saúde sucateada e um obsoleto sistema de transportes. Mas o que esperar agora, quando deixaremos de arrecadar R$ 3 bilhões já em 2012, sendo que esse valor anual deverá duplicar até 2019?

Permitam-me responder: não devemos esperar. Se a presidente Dilma não vetar o projeto aprovado no senado, está na hora de pensarmos em sair da federação. Tomemos, pois, o Palácio Guanabara, torcendo para que o governador se junte a nós assim que chegar de Paris. Independência já! Queremos o Rio de Janeiro fora do Brasil. Se não temos chimarrão, podemos servir um chope gelado nas barricadas, acompanhado de um torresminho, claro, por que ninguém é de ferro. E, na falta do Renato Borghetti, chamamos o Dicró e o Zeca Pagodinho, além da bateria do Salgueiro pra manter a cadência da Revolução.


O Arnaldo Jabor pode aparecer no jornal da noite para incendiar os intelectuais, a Miriam Leitão explica os gráficos e o Zuenir Ventura reúne a cidade partida, quer dizer, o estado partido. A Raça rubro-negra ocupa a fronteira com São Paulo, a Young Flu toma a divisa com Minas e as caravelas vascaínas protegem nossos mares petrolíferos. Todos os pilotos de asa-delta serão chamados para a força aérea. As garotas de Ipanema serão convocadas para o serviço de inteligência. Os moderninhos do Leblon ficarão na retaguarda. Na Serra, no norte fluminense e na Costa Verde, milhares de voluntários se levantarão contra a injustiça, tomando o destino do povo em suas mãos enrugadas pelas enchentes do ano passado, já que não terão mais verbas para reconstruir as cidades.

Chegou a hora. Queremos o Rio de Janeiro fora do Brasil. E se você acha que tudo isso é uma piada, espere até ter sua aposentadoria cortada, seus filhos sem emprego e seu município em permanente estado de calamidade pública. Infelizmente, meu amigo, esse é um caso concreto de: independência ou morte.

Ou assunto pra mais um chopinho na praia.


• Felipe Pena é jornalista, escritor e professor da Universidade Federal Fluminense. Autor de 11 livros, é doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado em Semiologia da Imagem pela Universidade de Paris – Sorbonne III.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Entrevista sobre o novo romance



Em 1989, Felipe Pena, então aluno do primeiro período de comunicação da UERJ, freqüentou semanalmente a Colônia Juliano Moreira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Durante seis meses visitou os pacientes, ouvindo suas histórias e acompanhando seus dramas. Alguns internos mantinham um pequeno caderno em que relatavam o cotidiano nos pavilhões psiquiátricos. Era um caderno coletivo e caótico, com diferentes caligrafias, desenhos superpostos, anotações e rabiscos nas margens.

Com paciência, o futuro escritor ouviu de todos que escreviam ou desenhavam o incompreensível enredo daquela história. Vinte dois anos depois, usou a experiência como gênese e construção de “O verso do cartão de embarque”, que acaba de ser lançado. “É um livro sobre a irracionalidade dos rótulos, sobre os estereótipos, sobre a avareza cognitiva com que julgamos e somos julgados. É muito mais fácil impor um rótulo a alguém do que contemplar a complexidade, enxergar as nuances, perceber os fractais que compõem qualquer personalidade”, explica Felipe, também autor dos romances “O marido perfeito mora ao lado” (2010) e “Fábrica de diplomas” (2008), que compõem o que ele identifica como uma “trilogia do campus”, já que todas as obras apresentam como pano de fundo o meio universitário e um personagem recorrente, o professor Antonio Pastoriza.

Narrado de forma fragmentada, com a utilização de variados recursos (diário íntimo, roteiro de filme, atas de reunião, chats na internet), é, ao mesmo tempo, um romance de amor e de enigma, que surpreende o leitor desde as primeiras páginas, com a reprodução de uma crônica de jornal que mudará o destino das personagens. Nesta entrevista, Felipe Pena comenta sua mais recente obra, mas sem entregar a surpresa final. Porque, como o autor faz questão de lembrar, o livro “sempre pertence ao leitor”.








Pode-se classificar “O verso do cartão de embarque” como uma história de amor? Ou uma história de enigma?

É um romance sobre a irracionalidade dos rótulos, sobre os estereótipos, sobre a avareza cognitiva com que julgamos e somos julgados. É muito mais fácil impor um rótulo a alguém do que contemplar a complexidade, enxergar as nuances, perceber os fractais que compõem qualquer personalidade. E isso é muito cruel.
Os outros são nossos narradores. Não há fuga possível para o discurso alheio que nos constrói. Estamos à mercê dos advérbios que não queremos, dos adjetivos que não merecemos, dos pronomes que foram trocados. Nossa história não nos pertence.

Como se entremeiam, no romance, as fronteiras entre realidade e ficção?

Tenho muitas dificuldades para reconhecer essas fronteiras. Eu invento tudo que possa parecer realidade. Mas a minha matéria-prima é a pesquisa, o trabalho de campo, ou seja, uma “suposta” realidade, ou, pelo menos, a construção social dessa realidade, que está sujeita aos estereótipos que mencionei na resposta anterior. O que tento fazer é dançar sobre a realidade através da ficção, da narrativa, dos personagens e do trabalho em cima da linguagem. Aliás, muito trabalho. Sou um estivador de sapatilhas.


A narrativa fragmentada lhe permitiu a utilização de variados recursos, como crônica de jornal, diário íntimo, roteiro de filme, atas de reunião, chats na internet etc. Pode-se dizer que “O verso do cartão de embarque” é um romance com linguagem experimental?

Não há nada que já não tenha sido experimentado antes em outros romances, de outros autores. Apenas me pareceu que a fragmentação e os múltiplos recursos de linguagem seriam mais fiéis ao tema do livro.


Qual a importância de sua formação em psicologia para a gênese e a construção do livro? No apêndice, você menciona o tempo em que visitou os pavilhões psiquiátricos da Colônia Juliana Moreira, no Rio de Janeiro, quando teve acesso a um caderno em que os internos relatavam seu cotidiano.

A estada na Colônia Juliano Moreira foi em 1989. Durante seis meses, fiz visitas regulares aos pacientes, ouvi suas histórias, acompanhei seus dramas. Mas isso é muito pouco, quase nada mesmo, para chegar perto de entender o que era o cotidiano deles. Só os próprios poderiam fazer isso, e, mesmo assim, teriam que enfrentar a sombra opressora da linguagem (o que tentaram fazer, corajosamente, no caderno). Levei 22 anos para escrever este livro, que, obviamente, não é a reprodução das histórias do caderno, mas a inevitável conclusão de que o mundo “aqui fora” (com aspas infinitas, por favor) não é muito diferente.
Para um psicótico – ou louco, se você preferir – a loucura é um encontro apavorante com a falta de sentido. Ele é incapaz de reconhecer e nomear a partitura simbólica que rege o universo de comunicação das outras pessoas. Ele é incapaz de reconhecer a rede da linguagem, com seus códigos e procedimentos. Então, o louco é aquele que, através do delírio ou da alucinação, tenta reconstruir, à sua maneira, um mundo que tenha sentido.
A narrativa dos psicóticos não se localiza no rompimento com a realidade, mas no caminho para restaurá-la. Toda loucura é uma tentativa desesperada de sair da loucura.
Não é o que nós fazemos diariamente, em nossa aparente normalidade? Onde está a diferença?

Há alguma razão especial para que o livro seja dedicado a Geraldo Vandré?

Prefiro deixar esta resposta para os leitores.

Que relação você pode apontar entre “O verso do cartão de embarque” e o seu romance anterior, “O marido perfeito mora ao lado”, publicado em 2010?

Muito pouca. Apenas a utilização do personagem Antonio Pastoriza e a ambientação em um campus universitário, que vão na esteira do meu primeiro romance, “Fábrica de diplomas”, formando uma “trilogia do campus”.
“O marido perfeito mora ao lado” foi escrito com a clara pretensão de confundir as classificações de gênero. Tem jeito de história policial, pode ser lido como comédia romântica, a narrativa é alternada (ora em primeira pessoa, ora em terceira) e o título parece de auto-ajuda. Ainda assim, não passa de uma história linear, de inspiração folhetinesca, balzaquiana, com ganchos nos finais de capítulos e personagens do cotidiano, da comédia humana de nosso cotidiano.
“O Verso do cartão de embarque” envereda por um caminho completamente diferente, conforme mencionei nas primeiras respostas.

Como situar a presença do personagem Antonio Pastoriza, que é recorrente em sua obra?

Como o sujeito que sofre com as situações que o autor impõe a ele. E talvez o autor carregue nos rótulos e estereótipos, dificultando a vida do pobre Pastoriza. Mas ele parece gostar dos livros ou, pelo menos, finge gostar, já que escreveu a orelha do último romance. Queria aproveitar a pergunta pra me desculpar com o personagem. Posso? Então lá vai. Perdoe-me pelos inúmeros erros, Antonio. Perdoe-me pelos adjetivos injustos, pelas frases longas e também pelas curtas. Mas lembre-se que a história pertence a quem a lê. O nome do leitor é que deveria vir na capa, não o meu – como diria o Lobo Antunes. Então, por favor, divida a minha culpa com ele (o leitor, não o Lobo).


Em nota ao romance, são identificadas as referências explícitas e implícitas a autores da literatura brasileira contemporânea, entre os quais Reinado Moraes, Luiz Ruffato, Adriana Lisboa, João Carrascosa, Lourenço Mutarelli. São escritores de quem você se sente próximo?

São escritores que eu admiro. Assim como admiro o Luiz Eduardo Matta, o Edney Silvestre, o Rodrigo Lacerda, o Antonio Torres, a Carola Saavedra e o André Vianco, entre muitos outros. Mas não estou necessariamente próximo deles. Apenas me preocupo em ler os autores nacionais contemporâneos. E fico muito surpreso quando alguns escritores brasileiros citam apenas autores estrangeiros (ou nacionais que já tenham morrido) como suas referências. Gostaria de saber os motivos.

Seu primeiro romance, “Fábrica de diplomas”, de 2008, está sendo relançado pela Record. Você fez mudanças no livro?

Fiz algumas mudanças. Cortei um ou outro parágrafo para tornar a narrativa mais dinâmica.


Qual a importância do Rio como cenário de suas histórias?

O Rio de Janeiro está presente em todos os meus romances. Como diz o Antonio Gedeão, “minha aldeia é todo mundo, poço sem fundo”. Ainda há muito o que falar sobre esta cidade. E, falando sobre ela, falar sobre todas, conforme aprendi com o Renato Cordeiro Gomes.


O Manifesto Silvestre, de 2010, em defesa do entretenimento e da popularização da literatura, do qual você foi um dos signatários, continua de pé? Que avanços ou retrocessos você aponta na proposta?

Foi um momento importante para marcar a defesa da formação de leitores no país e de alguns gêneros que pareciam ignorados pela mídia e pela crítica. O número de signatários triplicou em um ano.
Mas acho que fui incompreendido por alguns colegas, tanto na academia como na literatura. Mesmo assim, continuo defendendo as ideias que estão descritas no manifesto, o que não quer dizer que elas sejam balizadoras dos meus romances (muito pelo contrário) ou dos romances dos demais signatários. Aliás, os signatários têm obras completamente distintas em termos de gênero e identidade. O texto é político – como todo manifesto – e assim deveria ser interpretado.
Mas, como já disse, o texto sempre pertence ao leitor.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

AMORES PERDIDOS - crônica de hoje no JB


Ela ligou o rádio. O medo de ter medo de ter medo. Nina adorava o Renato Russo. Ouvia o dia inteiro, intercalando com a poesia do Rimbaud, os romances latino-americanos e a novela da Globo. Podia ser um recado personalizado se eu fosse capaz de entender. Bastava notar o aumento do volume no meio da música, sempre na mesma parte: o salva-vidas não está lá porque não temos.

Não notei. O salva-vidas não estava lá.

No primeiro ano, grudamos o couro um no outro até fazer ferida. Tínhamos que recuperar o tempo perdido. Outra música do Renato, eu sei. Mas nessa época ouvíamos Radiohead, Los Hermanos, Beatles e até nos divertíamos com a Lady Gaga, dançando seminus na varanda só pra escandalizar os vizinhos.

Nas noites calmas, as peel sessions de P J Harvey e o remix do Yolatengo disputavam espaço com o velho Miles Davis. Bebíamos o Chateau Laplanche no copo de geleia mesmo, mas só após a decantação.

- Deixa o vinho respirar, meu amor.

Os finais de semana eram todos prolongados. Nina chegava lá em casa na quinta e só ia embora na terça. Vida de casado, eu achava. E continuei achando. Ela separou metade das gavetas do closet, transferiu minhas camisas para o quarto de hóspedes e hospedou os sapatos no lugar da coleção de fitas VHS, devidamente catalogadas no armário da biblioteca. Bora digitalizar esse negócio, Antonio!

Concordei.

Nem o que havia de mais perturbador na minha rotina intelecto-urbana era um estorvo. Pelo contrário. Eu gostava dos jogos infantis, das interrupções no meu trabalho, do raciocínio perdido. Há uma certa sedução na ingenuidade. Ou na crença na ingenuidade.

Nina preparava pequenas surpresas em efemérides do calendário judaico-comercial-cristão. Na Páscoa, separou cascas de ovos e pintou-as delicadamente como se fossem obras astecas, deixando-as em um cesto na porta do meu escritório. No Natal, fez um imenso cartão em forma de mosaico com fotos de nossa viagem pela Europa. No meu aniversário, construiu uma bandeja para o notebook, acompanhada de uma proteção de tela com o rosto do incrível Hulk. Você é meu Bruce Benner, dizia, estimulando raios gama por métodos pouco ortodoxos.

E voltava pra minha biblioteca, tentando sorver tudo que encontrava nas prateleiras. Literatura russa, sociologia americana, história francesa, filosofia alemã. Só parava pra ver a novela e o paredão do Big Brother.

Ela conseguia fazer essa mistura entre versos alexandrinos e cantigas de ninar (incluindo o trocadilho). Como se a Silvia Plath e uma líder de torcida habitassem o mesmo corpo. Num dia líamos A superação da metafísica, do Heidegger. No outro, dançávamos o Ilariê da Xuxa. E, porra, eu morro de vergonha desse alemão pós-niilista. Prefiro o concretismo da loura, embora jamais tivesse tempo de acompanhar sua pedagogia. Além de não ter nenhum tesão nas paquitas.

Meu negócio é a Nina mesmo.

Seria injusto dizer que metade das minhas crônicas foi inspirada na sua transcendência eslavo-tupiniquim-televisiva. Era muito mais que isso. Todas as crônicas, todos os livros, todos os verbos, advérbios, adjetivos, concordâncias e discordâncias da minha lexicografia primária foram criados pelo dicionário de Nina. Tudo estava nela. Sem exagero. Podem acreditar: não tô pagando paixão. Apenas consignando um fato concreto, lúcido, racional.

Ainda assim, não fui capaz de perceber sua angústia. Não consegui dançar nas entrelinhas. Não olhei pra cima. Não cavei a terra. Não joguei as cartas do tarô. Não li o poema do Carpinejar.

Descobre-se um amor na iminência de perdê-lo.


Além de jornalista e escritor, Felipe Pena é doutor em Literatura pela PUC, pós-doutor em semiologia pela Sorbonne III e professor da UFF. É autor de 11 livros, entre eles os romances Fábrica de Diplomas, O marido perfeito mora ao lado e O Verso do cartão de embarque.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Pesquisas e palestras sobre jornalismo

Programação do GP de Teoria do Jornalismo da Intercom

Coordenação geral e curadoria: Prof. Felipe Pena

4 de setembro
- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
O jornalismo e a construção social da realidade
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 4/9 das 14h00 às 16h00 -


A teorias do jornalismo impresso e a construção do cotidiano urbano
Wellington José de olivbeira Pereira(UFPB)

O Brasil na Imprensa Argentina – Alguns Sentidos pregnantes no Discurso do Clarín Sobre a Violência
Marcelo da Silva(USC)

O Pensamento Jornalístico Português nos alvores dos anos quarenta: o contributo do Boletim do Sindicato Nacional dos Jornalistas (1941-1945)
Jorge Pedro Almeida Silva Sousa(UFP), Liliana Mesquita Machado(UFP)

As Notícias Vistas pelo Avesso: os Homicídios Femininos sob o Olhar dos Newsmaking
Sandra Raquew dos Santos Azevêdo(UFCG), Roberta Kelly de Sousa Ramos(UFCG)

A Grande Imprensa e o Poder: A Construção Social da Realidade no Embate Globo X Record
Lauro Almeida de Moraes(UESC)

A Construção Discursiva dos “fatos” pela mídia: um Estudo Enunciativo sobre o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) de Lula
Rafaela Queiroz Ferreira Cordeiro(UFPE), José Ricardo Rodrigues de Mello Filho(UNICAP)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Cobertura política, espaço público e humanização do jornalismo
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 4/9 das 16h00 às 18h00 -


Humanização e desumanização no jornalismo: algumas saídas
Jorge Kanehide Ijuim(UFSC)

Quando Lasswell encontra a cobertura eleitoral da FSP: uso do "coeficiente de desequilíbrio" na análise empírica da produção jornalística da FSP em coberturas de campanhas presidenciais do PT e PSDB
Emerson Urizzi Cervi(UEPG)

As teorias do jornalismo e a leitura do espaço público
Tarcineide Mesquita Galdino(UFPB), Wellington José de Oliveira Pereira(UFPB)

Jornalismo: identidade e contribuição ao agir político
Gabriel Nogueira Linhares Marquim(UFPE), Heitor Costa Lima da Rocha(UFPE)

Jornalismo, ética e humanização: reflexões sobre a tríplice tessitura
Criselli Maria Montipó(UFSC)

Direitos humanos? A uma parte da imprensa brasileira, depende...
Wagner Barge Belmonte(Fapcom)



5 de setembro
- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
O jornalismo literário e as novas possibilidades de carreira para os jornalistas
Coordenador(a): Monica Martinez (FIAMFAAM), Coordenador(a): Felipe Pena de Oliveira (UFF)
Dia 5/9 das 14h00 às 16h00 -


O Perfil dos Jornalistas Freelancers da Cidade de São Paulo: mudanças no mundo do trabalho do jornalista
Rafael do Nascimento Grohmann(USP)

Possibilidades de aplicação do conceito de carreiras profissionais nos estudos sobre jornalismo
Fábio Henrique Pereira(UnB)

O Webjornalismo e a Sociedade da Informação: Os Impactos Sobre o Fazer Jornalístico e as Empresas de Comunicação
Ivo Henrique França de Andrade Dantas Cavalcanti(UFPE)

Ensino de jornalismo: lições da história para além do empirismo
Alice Mitika Koshiyama(ECA-USP)

Jornalismo Literário em Ambientes Digitais: estudo de caso da produção da jornalista Eliane Brum
Monica Martinez(FIAMFAAM)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Discursos jornalísticos e estudos etnográficos
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 5/9 das 14h00 às 16h00 -


O Etnógrafo e o Jornalista: O Olhar e a Escuta como Ferramentas de Trabalho
Karina Galli Fraga da Silva(UFMT)

Credibilidade e capital social no jornalismo: aproximações entre conceitos de Tobias Peucer e Pierre Bourdieu
Cândida de Oliveira(UFSC)

O discurso jornalístico como dispositivo de subjetivação
Carolina Pompeo Grando(UFSC)

A criança leitora imaginada por Zero Hora
Thais Helena Furtado(UFRGS)

A Contribuição de Metodologias de Construção do Discurso Histórico à Prática do Jornalismo
ANDRÉA MOREIRA GONÇALVES DE ALBUQUERQUE(Ufal)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
O jornalismo investigativo e a construção das fontes
Coordenador(a): Monica Martinez (FIAMFAAM)
Dia 5/9 das 16h00 às 18h00 -


Jornalismo sem Investigação: flertes com o “Homem Cordial”
Adriana Maria Andrade de Santana(UFPE)

As Fontes de Informação e a Construção Social da Realidade: Aproximando Conceitos
Marina Chiari Lima Mendes(UNAMA)

Jornalismo local: a ética da convicção e a ética da responsabilidade na proximidade com as fontes
Carla Algeri(UFSC)

Vazamentos e vulnerabilidades: o Caso Wikileaks à luz do direito à informação
Paula Casari Cundari(Feevale)

Jornalismo investigativo: desafios, impasses e oportunidades na era digital
Samuel Pantoja Lima(UFSC)



- GP - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Jornalismo digital e os estudos culturais na Teoria do Jornalismo
Coordenador(a): Leonel Azevedo de Aguiar (PUC-Rio)
Dia 5/9 das 16h00 às 18h00 -


Jornalismo Cultural e o Fandom
Cristiane Henriques Costa(UFRJ), Diana Damasceno(UFRJ)

O Infotenimento no Webjornalismo: uma Reinterpretação dos Critérios de Noticiabilidade
Carlysângela Silva Falcão(UFPE)

Jornalismo e conhecimento sob a perspectiva da participação de leitores online
Vanessa Hauser(UFSC)

Jornalismo amador: proposta para definir as práticas jornalísticas exercidas pelo público em ambientes interativos
Leonel Azevedo de Aguiar(PUC-Rio), Adriana Barsotti(PUC-Rio)

ffwMag! em: uma Articulação Teórica em Torno das Materialidades da Comunicação
Nayana Gurgel de Moura(UFRN)



6 de setembro
- IJ - Sessão de apresentação de trabalhos (EDITAR)
Jornalismo e conhecimento
Coordenador(a): Monica Martinez (FIAMFAAM)
Dia 6/9 das 10h00 às 12h00 -


O Jornal como notícia: vozes da comunidade interpretativa
Bruno Souza Leal(UFMG)

Laboratório: espaço de pesquisa empírica em jornalismo
Márcia Marques(UnB)

Narrativa Jornalística e Memória: A cobertura Noticiosa dos 30 Anos de Aparição Pública da Aids
Carlos Alberto de Carvalho(UFMG)

A Opinião Pública e o Assassinato da Empresária Marcela Montenegro
Luana Amorim Gomes(UFC)

Dinâmica do Texto Jornalístico: Montagem das Imagens Fotojornalísticas e Discursos de Poder
Laís Santoyo Lopes(PUC-SP)

“A Alegoria da Caverna” de Platão a Comunicação Social Contemporânea.
SHIRLEY ARAUJO DE OLIVEIRA(UNEF)



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

As frases não ditas são eternas - parte II

Crônica não é conto de fadas. Você jamais encontra o sapato, Berenice. No máximo, um paletó por cima dos ombros. O tintureiro no dia seguinte. Um belo café no sábado de manhã.

Quem precisa de fadas?

O paletó é muito melhor do que o sapato. Pense bem! Pés descalços ou o frio nas costas? Capa e espada ou terno e gravata? Cara de anjo ou barba de homem? Essa história de príncipe encantado foi criada pra confundir os hormônios femininos. Basta lembrar de um simples detalhe: o sujeito veste um collant apertado com shortinho balonê. Entendeu? Shortinho balonê, minha querida! Que é isso? Onde está a credibilidade?

Você desfilaria pela Avenida Rio Branco com alguém assim? Sairia pra jantar no Garcia & Rodrigues? Tomaria um chope no Cervantes? E a galera da Merza, o que diria? Tudo bem, você não vai mais a São Paulo. Pânico de avião, preguiça da rodovia. Então, imagine. Apenas imagine aquela mesa lateral, perto do balcão, cheia de marias-teclado falando do shortinho balonê. Sim, elas gostam. É verdade. Até já babaram naquele menino de um metro e sessenta. (Ele é carioca, Berenice.) Eu sei, não importa. (Tem barba.) Claro, é pra compensar. A altura e o shortinho. E, de vez em quando, o casaco estiloso, comprado no Shopping Leblon. Volte para o paletó, minha querida. Esqueça o resto. Principalmente os sapatos.

Berenice acordou cedo. O sonho ainda estava quente, real. Shortinho, sapato, paletó, príncipe. Uma névoa de pensamentos sem sentido. O enredo surrealista. Um filme de David Lynch. Se tivesse lido Freud, talvez pudesse interpretar aquelas ideias fora de lugar. Lembraria do deslocamento, um conceito vago, pilar do pensamento freudiano sobre os sonhos. A via régia para o inconsciente. A forma mais eficaz de acesso a seus recalques, suas angústias. Meio pretensioso, né? Ou não.

- Que pena, não sou psicanalista – pensou, em voz alta, os olhos ainda se acostumando com a luz que entrava pela janela.

- Todos somos. Os jornalistas mais, os psicólogos, menos – respondeu Pastoriza, em pé, na frente da cama, segurando a bandeja com o café da manhã.

Por algum motivo desconhecido (ou recalcado), Berenice vestia apenas uma camisa listrada de manga comprida, sem os três botões de cima, que pareciam ter sido arrancados com violência, deixando fiapos de linha em seu lugar. Ela se acomodou no meio da cama, sentada, pernas cruzadas em flor de lótus, as pontas da camisa cobrindo a parte interna das coxas. Na bandeja, havia apenas um café preto, duas torradas com as bordas enegrecidas, manteiga, geleia de uva e um suco de caixinha, daqueles com mistura de sabores.

- Minha torradeira é velha. A casca sempre fica assim: completamente queimada. Vou cortar pra você.

- Não precisa. Tá ótimo. Adoro pão bem passado – ela disse, ajeitando as mangas.

- Pelo menos a geleia é muito boa. Francesa. Foi presente de uma psicanalista de Bordeaux. Ela e o marido têm um vinhedo e também produzem essa geleia maravilhosa.

- Geleia e psicanálise. Boa redundância. Eu me interesso pelas duas.

- Tá querendo mudar de profissão? – perguntou Pastoriza.

- Não. Só tentava entender o sonho que tive. Queria saber o que vai me acontecer.

- Nesse caso, recomendo uma cartomante. A psicanálise não vai te ajudar muito.

- Será? A parte do café, por exemplo... Eu previ. Tava no sonho.

- Essa é fácil. São restos diurnos. Capítulo sete da Interpretação dos Sonhos. Posso dizer que você projetou o dia de hoje com base na noite de ontem.

Papinho brabo. A história da geleia e da torradeira estava muito melhor. Berenice começava a achar que a conversa freudiana infanto-juvenil acabaria com as boas lembranças da noite anterior. Talvez o sujeito fosse mesmo um Don Juan genérico, o que nem seria problema. Tratá-la como ignorante é que enfraquecia o cara. Ou, pelo menos, a imagem que tinha do cara. Onde estava o cronista do jornal? Cadê o autor daquelas metáforas precisas, das metonímias poéticas, das frases simples que expressavam a laboriosa tradução da complexidade. Sem didatismo, sem arrogância, sem subestimar o leitor. Onde estava? Onde? Onde?

Meu café da manhã por uma crônica de Antonio Pastoriza!!!

A geleia francesa era muito boa mesmo. Poderia até compensar a decepção. Um chocolate belga e a serotonina atingiria níveis sexuais. Berenice acostumara-se às compensações. Colégio católico do interior com púberes em fraldas, faculdade pública com garotos mimados da zona sul, redação de jornal com velhos barrigudos que agiam como púberes em fraldas e/ou garotos mimados da zona sul. O chocolate ganhava de goleada. Belga, senegalês, australiano. Qualquer um. Na média, um chocolate valia mais do que mil palavras com testosterona.

- Taí um clichê verdadeiro – ela disse, na entropia do raciocínio.
- Qual? A interpretação dos sonhos ou o café na cama? – perguntou Pastoriza.
- Eu estava pensando em chocolate.
- Claro. Foi bom pra mim também.

A risada cúmplice confirmou os clichês e as repetições.

Pastoriza abriu uma caixa de Sonhos de Valsa. Nova confirmação.
Então, o cara tinha bom humor! Quantos pontos você ganhou com aquela resposta, Antonio!? Foi-se o psicanalista arrogante e voltou o cronista elegante. Até dessa rima pobre nós fizemos piada. E do sonho. E da cartomante. E da psicanálise. E do jornalismo. E da torrada queimada. E do papinho brabo. E da geleia francesa. E da sua colega de Bordeaux. E da minha paixão, que estava começando.

Ali, você aprendeu a receita. Nos anos seguintes, bastou manter a sagacidade. Você relevou meus gritos, minhas crises, minhas inseguranças. Sempre com uma palavra espirituosa, um comentário jocoso que me desarmava. Não precisou mostrar erudição ou aplicar suas técnicas do divã. Ou será que aplicou?

Não importa. Cada dia mais apaixonada, eu me recusei a ver defeitos. Só queria enxergar o ideal de homem que você encarnava. Culto, moderno, másculo, charmoso e, acima de tudo, bem humorado. Ele não pode ser tão perfeito, Berenice – diziam minhas amigas casadas, há muito mais tempo no mercado. Vocês não o conhecem como eu – respondia, acendendo a vela pro teu altar.

Acendi velas pro teu altar todos os dias.

Com você, nunca houve uma frase feita, uma repetição, uma rotina. Exceto as que faziam parte de nossos clichês, esses sempre cuidadosamente repetidos, até a exaustão, que era a nossa forma de não ser repetitivo, não ser rotineiro, não cair no sofá com o controle remoto nas mãos.

Você tinha o insensato dom da originalidade, Antonio. Você me surpreendia. Não mandava rosas, preferia margaridas, lírios e outras flores de nomes desconhecidos. Não escrevia cartas de amor, desenhava. Não comprava joias, esculpia meus anéis.
E quando eu disse que te amava, você não respondeu com o fatídico eu também.

Ponto pra você, Antonio. Arrependimento pra mim.

O que posso dizer? Há momentos (quase todos) em que prefiro a redundância. Por que você nunca disse que ...? Por quê? Por que você não disse, Antonio?

Por que não disse?


terça-feira, 26 de julho de 2011

O entretenimento como conceito de valor na literatura

Em recente polêmica envolvendo uma crítica da professora Beatriz Resende ao seu último livro, o escritor João Ximenes Braga desabafou: "Críticos de cinema e música entendem que há espectadores e ouvintes com desejos diversificados. Chegamos aos livros e, danou-se, os acadêmicos e certos críticos que sempre falam em ‘a literatura’ com artigo definido, como se houvesse um único cânone a ser seguido, não fazem cerimônia em dizer que o leitor que não os obedece é burro ou pouco exigente."


Braga pondera que, pela premissa da crítica brasileira, dificilmente haveria uma versão brasileira contemporânea de fenômenos de qualidade e popularidade como o inglês Nick Hornby e o americano David Sedaris. Segundo ele, certos críticos locais os matariam no nascedouro e trucidariam sua linguagem simples, pois negam a possibilidade de uma literatura que não seja dirigida a uma casta de leitores que habita uma torre de marfim.

Concordo com ele. É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao experimentalismo linguístico.

Isso não significa, no entanto, que não sejam boa literatura. Pelo contrário, alguns são obras de arte de relevante valor. Só não são acessíveis. Eu, por exemplo, leio esses autores, mas tenho doutorado em Literatura. Aliás, isso é parte do problema: a Academia e uma elite leitora convencionaram que só tem valor aquilo que está na elipse, que força o leitor a encontrar sentido onde poucos conseguem enxergar. Por essa premissa, o que é fácil de ler não tem valor literário. E quem discorda dela é taxado de superficial.

Para os doutores da Academia, entreter significa passar o tempo. É um termo pejorativo, aviltante, usado para diminuir uma obra. Mas não é o que ele significa para quem se envolve com um livro e não consegue largá-lo. Em literatura, entretenimento é sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo.

Apesar da tão apregoada diversidade da prosa nacional, a crítica acadêmica dividiu-a em pólos antagônicos. Quem não é moderninho, é superficial. E ponto final. Essa é a generalização leviana que produz distorções, afasta leitores e joga sua névoa sobre o mundo literário.

Em um mea culpa corajoso, o crítico Tzvetan Todorov concluiu: “A história da literatura mostra bem: passa-se facilmente do formalismo ao niilismo ou vice-versa. (...) Numerosas obras contemporâneas ilustram essa concepção formalista de literatura; elas cultivam a construção engenhosa, os processos mecânicos de engendramento do texto, as simetrias, os ecos, os pequenos sinais cúmplices. (...) Para essa crítica, o universo representado no livro é auto-suficiente, sem relação com o mundo exterior.”

Outro crítico de renome, o professor Émile Faguet, titular da cadeira de Literatura Francesa na Sorbonne, também vai pelo mesmo caminho no ensaio A arte de ler, quando dá a um capítulo o título de escritores obscuros: “Esses autores desfrutam sempre de enorme reputação. Têm um bando e um sub-bando de admiradores. O bando é composto por aqueles que fingem entendê-los, o sub-bando por aqueles que não ousam dizer que não os compreenderam e que, sem os lerem, declaram que são primorosos”

Mas também há exemplos mais antigos. O irlandês C.S. Lewis, que morreu em 1963, dizia que a grande leitura não exige perícia ou força; exige, ao contrário, desarme e paixão. Lewis era um defensor do leitor leigo, “comum”, ou seja, “aquele que lê sem nada esperar, que lê simplesmente porque o livro o agarra e ele não consegue mais largá-lo”

É em busca desse leitor que vai a literatura que considera o entretenimento como valor estético. E não custa repetir: entretenimento não é passatempo, é sedução pela palavra. É um conceito ao qual se deve atribuir fundamento artístico. É um termo que não pode ser rotulado ou tratado com preconceito. É um gênero cuja boa tecelagem está entre as mais difíceis e trabalhosas.

Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. A escrita simples não é superficial: é a tradução laboriosa da complexidade. Escrever fácil é muito difícil.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Crônica no Jornal do Brasil - 15/7/2011

A saudade é minha culpa


As frases não ditas são eternas.

Não era o que eu queria dizer. Nem o que o ela teria dito. Mas já estava lá, escrito, como se fosse para nós. O que ficou de você em mim foram os fragmentos, polímeros, fractais, resíduos.

E o teu queixo no queixo do meu filho. Teu genoma em cada livro. Tua face em cada linha. Teu sangue em cada frase. Minhas frases, tuas digitais, e teu queixo, teu texto. O que você lê agora é o que resta nos olhos do rufião. Sobrevivi a expensas de galanteador, mas não voltei a me encontrar. Depois de você, todas tinham o mesmo defeito: nenhuma delas era você.

Nunca nenhuma delas será você.

Os outros são nossos narradores. Não há fuga possível para o discurso alheio que nos constrói. Estamos à mercê dos advérbios que não queremos, dos adjetivos que não merecemos, dos pronomes que foram trocados (de propósito). Nossa história não nos pertence. Não temos tempo.

Tempo é expectativa. É o portão de ferro da angústia.

Mas se você estivesse aqui, tudo seria diferente!

Se você estivesse aqui, pela oitava e única vez, prometo que tudo seria diferente.

Se você estivesse aqui, eu ouviria os comentários sobre meu egoísmo, concordaria com as mudanças, aceitaria as críticas, não me importaria com a verdade.

Se você estivesse aqui, o teu egoísmo não seria necessário.

Se você estivesse aqui, alugaríamos um apartamento bem pequeno para que os desencontros acabassem se encontrando.

Se você estivesse aqui, chegaríamos no mesmo passo, enfrentaríamos a chuva, dividiríamos a capa e a marquise.

Se você estivesse aqui, comeríamos no mesmo prato, dividiríamos a carne, beberíamos o licor no copo de vinho.

Se você estivesse aqui, levaria teu avô ao médico, cuidaria do teu pai, educaria teu irmão e te daria um filho.

Se você estivesse aqui, arrumaria um quarto pra tua mãe, fingiria que gosto dela e ainda acreditaria nos elogios.

Se você estivesse aqui, dormiríamos até mais tarde, com a cortina fechada e o mundo lá fora, sem importância.

Se você estivesse aqui, passaria o creme nos teus pés depois de lixar tuas unhas pra te livrar da solidão.

Se você estivesse aqui, eu me sentaria na beirada da cama por duas horas, com o paletó fechado, enquanto você escolhe o vestido da festa.

Se você estivesse aqui, puxaria o zíper até o final das costas, deixando minha respiração no pescoço perfumado.

Se você estivesse aqui, sairíamos pela noite da cidade iluminada, veríamos o filme do cineasta desconhecido, descobriríamos um restaurante íntimo, escolheríamos o prato da casa, cruzaríamos a ponte e veríamos o barco pela proa.

E tudo mais. Tudo que você sempre quis:

Ouvir Indian Maracas, do Pelv’s. Dançar na batida do Bob Sinclair. Degustar o macarron da esquina. Ler a bíblia do Roberto Bolaño. Ver a exposição do Albuquerque Mendes. Assistir à montagem do Cyrano. Ir ao show do Radiohead e não se conter na quarta música da lista. I wish I were special.

Se você estivesse aqui, eu teria evoluído.

Mas você não está.

Quando foi embora, deixou-me a culpa e o atraso.


* Escritor, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense, Felipe Pena é autor de onze livros, entre eles três romances, todos publicados pela editora Record. Também trabalha como roteirista de televisão, coordena o Grupo de Pesquisas em Teoria do Jornalismo da Intercom e ministra oficinas de crônicas na Estação das Letras, no Rio de Janeiro. Tem dezenas de artigos científicos publicados no Brasil e no exterior, além de contos e ensaios em diversas coletâneas. Foi repórter da TV Manchete, comentarista da TVE-Brasil e sub-reitor da UNESA. É doutor em Literatura pela PUC-Rio, tem pós-doutorado em Semiologia da Imagem pela Université de Paris/Sorbonne III e é ignorante por conta própria. Contato: felipepena@globo.com

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O livro de contos de Marcio Renato dos Santos



Um autor em busca de tradução

Os homens sem alma não sorriem. Os homens sem alma carregam pastas. Os homens sem alma caminham pela Rua XV, em Curitiba, cidade que serve de cenário para os sete contos do livro de Marcio Renato dos Santos, cuja carreira no jornalismo e na crítica cultural já é conhecida em todo país.

O autor mora na capital paranaense e a expressão “homens sem alma” é cotidianamente repetida por ele, como um mantra, em suas conversas com amigos e colegas de redação. Duas informações que já seriam suficientes para identificar o teor autobiográfico de seus textos. Mas ele é ainda mais incisivo. O tom confessional começa no próprio título: Minda-Au foi a tradução que encontrou para a palavra dromedário quando tinha menos de uma ano de idade.

A partir desta palavra, ele diz que começou a se tornar Marcio Renato dos Santos. Ou seja, foi através da linguagem que começa a ter identidade. Ou, pelo menos, a buscar essa identidade. O que fica ainda mais evidente nas influências literárias de seus contos. Em “O espírito da Floresta”, por exemplo, o realismo fantástico o aproxima de uma determinada vertente da literatura latino-americana. Já em “De teletransporte nº 2”, Marcio subverte a pontuação, ignorando vírgulas e parágrafos, em um claro tributo a José Saramago.

Mas é no conto “Ali, agora”, o último do livro, que o autor se revela com mais intensidade, ao homenagear seu mestre, um escritor cujo nome não é mencionado. Só sabemos que ele morreu de câncer, com mais de sessenta anos. E que, além de habitar a mesma Curitiba, traduziu-a em palavras.

Minda-Au é o livro de um autor em busca da mais difícil das traduções. Seus contos ultrapassam a metalinguagem e as estratégias narrativas, pois não há nada mais complexo do que traduzir a si mesmo.

E é preciso muita coragem para tentar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um dos melhores livros de 2010



Os onze contos reunidos neste volume confirmam o gosto pela carpintaria estilística presente na literatura de João Anzanello Carrascoza. Entretanto, ao contrário de outros escritores contemporâneos, Carrascoza não tem na construção linguística o único objetivo de sua narrativa. Embora a preocupação com linguagem ocupe grande parte da obra, seu foco principal ainda é na precariedade da condição humana.

Este é o quinto livro de contos do autor, que também escreve para o público infanto-juvenil. Aliás, tal atividade parece ter forte influência nas histórias de Espinhos e Alfinetes, pois o olhar sobre a infância está presente em quase todos os textos. Carrascoza carrega na dramaticidade das relações entre pais e filhos de maneira poética, através de um encantamento peculiar, que é, ao mesmo tempo, sensível e preciso: “O pai voltou à sala, abotoado em seus silêncios. O menino sabia que era hora de não perturbá-lo, de só admirá-lo a ponto de se esquecer dele, num falso esquecimento”

Os contos de Carrascoza estão repletos de lirismo, mas não de sentimentalismo. Com muita habilidade, o autor consegue se equilibrar entre o ambiente onírico da fantasia e a dura percepção da realidade. Não seria exagero apontá-lo como um dos melhores contistas do país.