Quem sou eu
- Felipe Pena
- Escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III e ignorante por conta própria. Autor de doze livros, entre eles três romances, todos publicados pela ed. Record. Site: www.felipepena.com
terça-feira, 20 de novembro de 2012
O que realmente vale a pena
As crianças da ONG "Ler é 10, leia favela", que forma leitores no Morro do Alemão, durante o lançamento do livro Geração Subzero, na Biblioteca Nacional. Na semana passada, o coordenador da ONG, Otávio Jr. (à direita na foto) recebeu a primeira parcela dos direitos autorais do livro. Ele vai comprar uma Kombi para montar uma biblioteca itinerante.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
O amor são duas solidões que se protegem
Ela ligou o rádio. O medo de ter medo de ter medo. Nina adorava o Renato Russo. Ouvia
o dia inteiro, intercalando com a poesia do Rimbaud, os romances
latino-americanos e a novela da Globo. Podia ser um recado personalizado se eu
fosse capaz de entender. Bastava notar o aumento do volume no meio da música,
sempre na mesma parte: o salva-vidas não
está lá porque não temos.
Não notei. O salva-vidas não estava lá.
No primeiro ano, grudamos o couro um no outro
até fazer ferida. Tínhamos que recuperar o tempo perdido. Outra música do
Renato, eu sei. Mas nessa época ouvíamos Radiohead, Los Hermanos, Beatles e até
nos divertíamos com a Lady Gaga, dançando seminus na varanda só pra
escandalizar os vizinhos.
Nas noites calmas, as peel sessions de P J Harvey e o remix
do Yolatengo disputavam espaço com o velho Miles Davis. Bebíamos o Chateau Laplanche no copo de geleia
mesmo, mas só após a decantação.
- Deixa o vinho respirar, meu amor.
Os finais de semana eram todos prolongados.
Nina chegava lá em casa na quinta e só ia embora na terça. Vida de casado, eu
achava. E continuei achando. Ela separou metade das gavetas do closet,
transferiu minhas camisas para o quarto de hóspedes e hospedou os sapatos no
lugar da coleção de fitas VHS, devidamente catalogadas no armário da
biblioteca. Bora digitalizar esse
negócio, Antonio!
Concordei.
Nem o que havia de mais perturbador na minha
rotina intelecto-urbana era um estorvo. Pelo contrário. Eu gostava dos jogos infantis,
das interrupções no meu trabalho, do raciocínio perdido. Há uma certa sedução
na ingenuidade. Ou na crença na ingenuidade.
Nina preparava pequenas surpresas em
efemérides do calendário judaico-comercial-cristão. Na Páscoa, separou cascas
de ovos e pintou-as delicadamente como se fossem obras astecas, deixando-as em
um cesto na porta do meu escritório. No Natal, fez um imenso cartão em forma de
mosaico com fotos de nossa viagem pela Europa. No meu aniversário, construiu
uma bandeja para o notebook, acompanhada de uma proteção de tela com o rosto do
incrível Hulk. Você é meu Bruce Benner,
dizia, estimulando raios gama por métodos pouco ortodoxos.
E voltava pra minha biblioteca, tentando
sorver tudo que encontrava nas prateleiras. Literatura russa, sociologia
americana, história francesa, filosofia alemã. Só parava pra ver a novela e o
paredão do Big Brother.
Ela conseguia fazer essa mistura entre versos
alexandrinos e cantigas de ninar (incluindo o trocadilho). Como se a Silvia
Plath e uma líder de torcida habitassem o mesmo corpo. Num dia líamos A superação da metafísica, do Heidegger.
No outro, dançávamos o Ilariê da
Xuxa. E, porra, eu morro de vergonha desse alemão pós-niilista. Prefiro o
concretismo da loura, embora jamais tivesse tempo de acompanhar sua pedagogia.
Além de não ter nenhum tesão nas paquitas.
Meu negócio é a Nina mesmo.
Seria injusto dizer que metade das minhas
crônicas foi inspirada na sua transcendência eslavo-tupiniquim-televisiva. Era
muito mais que isso. Todas as crônicas, todos os livros, todos os verbos,
advérbios, adjetivos, concordâncias e discordâncias da minha lexicografia
primária foram criados pelo dicionário de Nina. Tudo estava nela. Sem exagero.
Podem acreditar: não tô pagando paixão. Apenas consignando um fato concreto,
lúcido, racional.
Ainda assim, não fui capaz de perceber sua
angústia. Não consegui dançar nas entrelinhas. Não olhei pra cima. Não cavei a
terra. Não joguei as cartas do tarô. Não li o poema do Carpinejar.
Descobre-se um amor na iminência de perdê-lo.
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Ainda congelados
A
resenha de João Cezar de Castro Rocha sobre o livro “Geração Subzero”,
publicada na última edição do Prosa & Verso, pode ser lida com uma mistura
de alívio e apreensão por aqueles que apreciam a literatura de entretenimento
no Brasil. Começo pelo alívio: seria uma enorme incoerência que uma coletânea
de autores congelados pela crítica fosse elogiada justamente por um crítico de
ofício. Caso isso acontecesse, que credibilidade ela teria junto aos leitores?
Entretanto,
apesar de reconhecer méritos na crítica de Rocha, também devo apontar seus
equívocos. O primeiro deles está na metodologia. Em vez de se debruçar sobre
todos os contos da coletânea – como fez Felipe Charbel na resenha sobre a
revista Granta – Rocha dedicou mais da metade de suas linhas aos conceitos
expressos na introdução do livro. Ao considerar a conceituação anacrônica,
argumentou que ela se apoia em um falso dilema entre narrativa e
experimentação, pois, segundo ele, “a novidade mais relevante da literatura brasileira
refere-se à superação desse falso dilema.”
Ora,
a premissa em si já traz uma contradição: afinal, se o dilema é falso, como a
sua superação poderia ser relevante? O fato, no entanto, é que o dilema é
verdadeiro e ainda não foi superado. Basta observar a produção literária
contemporânea para perceber que boa parte dos autores incensados pela crítica
universitária continua refém do experimentalismo, sem a preocupação de
construir personagens e tensões, conforme também constatou Felipe Charbel em
sua resenha sobre os contos da Granta brasileira.
Aliás,
o poder da crítica universitária é outro tema levantado por Rocha que o leva a
uma contradição. Ou melhor, a um ato-falho. Embora afirme que tal poder deixou
de existir há décadas, o crítico vale-se de sua posição acadêmica para decretar
que a coletânea “Geração Subzero” deveria ter sido publicada sem qualquer
reflexão. Ou seja, ele sugere que o entretenimento dispensa o diálogo com o
pensamento sobre a literatura.
Paro
por aqui. Um organizador de coletânea com responsabilidade deve parabenizar o
crítico pela disposição em analisar textos que são estranhos ao seu universo de
estudos. Contudo, ele também não pode deixar de se surpreender com a
disparidade de métodos do mesmo crítico em suas análises. Ou, para aplicar o
clichê que tanto o incomoda, com a utilização de dois pesos e duas medidas,
conforme se pode depreender deste pequeno trecho do texto publicado
recentemente por Rocha em um jornal paulista: "No espaço de uma resenha não posso fazer justiça
aos excelentes 20 textos escolhidos (para a Granta)."
A pergunta que faço é simples: pode-se fazer justiça aos
20 textos escolhidos para a Geração Subzero através da análise de apenas
quatro? Isso sem mencionar que tal análise foi feita a partir de preceitos
formalistas, observando-se erros de revisão e estrutura linguística, sem levar
em conta os enredos.
O professor Rocha
já conquistou seu espaço na academia e na crítica com méritos e louvor. É um
estudioso celebrado, com obras importantes e participações em eventos de
destaque, como a FLIP e as bienais do Rio e São Paulo. O próximo passo, porém,
exige que se dedique a aprimorar a capacidade de se despir de seus preconceitos
com a literatura de entretenimento. No fundo, é o que importa, pois crítica
não pode ser sinônimo de descaso com nenhum gênero literário.
Mesmo
que seja apenas para congelá-lo e manter o alívio dos leitores.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
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