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Escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III e ignorante por conta própria. Autor de doze livros, entre eles três romances, todos publicados pela ed. Record. Site: www.felipepena.com

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Artigo de sábado no Jornal do Brasil (foto da nossa mesa na Bienal - lotada)



O retorno à narrativa e o entretenimento como sedução pela palavra


A literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.

Usei as palavras acima em uma entrevista concedida a um jornal carioca no ano passado, quando fui injusto e deselegante com diversos autores brasileiros de ficção que não se encaixam no perfil descrito. Minha generalização, no entanto, foi retórica, estratégica. Tinha como objetivo levantar a discussão sobre a formação de um público leitor no país e contestar o predomínio de uma parte da crítica acadêmica que ainda vê na anacrônica experimentação o valor supremo do texto literário.

Como disse naquela entrevista, são os doutores universitários (e me incluo na lista) que prejudicam a formação de um público leitor no país. A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura.

É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico.

Isso não significa, no entanto, que não sejam boa literatura. Pelo contrário, alguns são obras de arte de relevante valor. Só não são acessíveis. Eu, por exemplo, leio esses autores, mas tenho doutorado em Literatura. Aliás, isso é parte do problema: a academia e uma elite leitora convencionaram que só tem valor aquilo que está na elipse, que força o leitor a encontrar sentido onde poucos conseguem enxergar. Por essa premissa, o que é fácil de ler não tem valor literário. E quem discorda dela é taxado de superficial.

Voltamos, então, à injustiça que cometi. Quero citar alguns autores que defendem o retorno ao compromisso narrativo e não se encaixam no perfil de herméticos. Um deles, o jovem Rodrigo Lacerda, deixou isso claro em entrevista recente a um jornal de Curitiba: “busco uma história bem contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor.”

A definição de Lacerda é primorosa e, como ele, há diversos escritores que enveredam pela mesma estratégia. Fernando Molica, Marcelo Moutinho, Tatiana Lévy, Homero Senna, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Ana Paula Maia, Livia Garcia-Roza, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues estão entre eles. E me perdoem todos aqueles que não mencionei.

Concordo que cada um escreva como pode, como diz o André De Leones. Mas alguns podem mais que os outros. O que proponho não é desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e justos) pelos cadernos de cultura do país. O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento.

Para os doutores da Academia, entreter significa passar o tempo. É um termo pejorativo, aviltante, usado para diminuir uma obra. Mas não é o que ele significa para quem se envolve com um livro e não consegue largá-lo. Em literatura, entretenimento é a sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo.

É esse o conceito de entretenimento que defendo para a ficção brasileira. Tenho a impressão de que todas as outras artes já o utilizam dessa forma, mas a literatura ainda parece padecer da velha dicotomia entre o erudito e o popular. O paradigma do biscoito fino é uma falácia de quase cem anos na cultura deste país. É o argumento da exclusão. São os brioches da nossa literatura, difundidos pelas Marias Antonietas encasteladas na linguagem empolada do hermetismo. Mas a guilhotina vai chegar.

Para quem for à Bienal do Livro neste sábado, o assunto será discutido ao meio-dia no café literário, em mesa mediada por mim e composta pelos escritores Luis Eduardo Matta e André Vianco. O que faremos? Contaremos histórias. Nas palavras de Eça de Queiroz, “contar uma história é a atividade mais generosa que um homem pode exercer”

· Felipe Pena é professor da UFF, doutor em literatura pela PUC-Rio e autor de dez livros, entre eles o romance “O analfabeto que passou no vestibular.” Em março, lança seu segundo romance pela Ed. Record.

2 comentários:

Rafael Cruz disse...

É curioso como tudo que você mencionou se aplica ao cinema brasileiro...

Jmelo27 disse...

Gostaria de ter tomado esse 'Café" recheado de palavras. E sendo as suas, acrescentar "sedutoras" seria, pra mim, pelo menos, uma mera redundância. Concordo com vc, Felipe. Quando se trata de formar leitor, para a literatura, não podemos entrincheirar o conceito de literário às linguagens de experimentação, apenas. Temos de pensar que o brasileiro não tem prática de leitura, muito menos literária. E apresentar ao leitor iniciante um texto cheio de experimentações formais pode afugentá-lo mais ainda do exercicio da leitura. Mas volto a frisar: as cursos de letras, já algum tempo, estão revendo os seus conceitos, rsrsrs. Abraços, J;