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Escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III e ignorante por conta própria. Autor de doze livros, entre eles três romances, todos publicados pela ed. Record. Site: www.felipepena.com

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O amor enlouquece


Que história é essa, doutora? Por que ele nunca voltará a ser o que era? Tudo bem, tô ouvindo: ninguém se banhará duas vezes nas águas do mesmo rio. Isso é filosofia grega? Então é antigo pacas! E o que esse tal de Heráclito sabe sobre o meu marido? Quando a gente olha para a margem do rio, a água já passou, portanto é outro rio. Essa parte eu entendi, mas não compreendi. Então: nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia. É! É poético! Parece letra de música. Mas não esclarece nada.

Chega de metáfora, doutora. Isso deixa a gente ainda mais confusa. Por acaso, você é um rio, Carlinho? Fala, criatura! Pelo menos, responde às perguntas. Esse rio deve estar cheio de piranha, doutora. Não, não tô sendo grosseira. Tô falando de traição mesmo. Conta pra ela, Carlinho.

Eu ouvi, ninguém me contou. Ele não sabe disfarçar, é incompetente até na hora de ter um caso. Que tipo de homem dá o telefone de casa pra amante? Isso é primário, doutora! É muita burrice! O celular existe pra quê? Não, eu não falei com ela. Nem escutei a conversa na extensão. Mas toda vez que eu atendo, desligam. Só pode ser ela, a perua. Às vezes, fico em silêncio pra ver se identifico a voz, mas ela é malandra, não fala nada. Deve perceber que sou eu pela respiração. Mulher traída respira mais fundo, ofegante. Toda amante sabe disso.

Tenho vontade de procurar um desses garotos marombados de academia e dar o troco. Mas falta coragem. Ia dizer o quê? Prazer, meu nome é Olga, sou corna e tô a fim de me vingar. Quer dar umazinha comigo? Não consigo, doutora. Tenho chifre, mas sou honesta. Ainda me resta dignidade.

Claro que tenho certeza. Pelo olhar, doutora. Não é o olhar dele, é o dos amigos. Fala aí, Carlinho. Confessa logo! Os amigos me olham com pena, como se eu fosse uma coitadinha. Olha lá a chifruda! Todos ficam com aquela cara de segredo, cochichando pelos cantos. Eles também devem ter suas pururucas aí pela rua.

É genético. Há um cachorro no DNA de cada homem, não tem jeito. Só que precisa ser discreto, né doutora? Meus outros namorados não eram santos, mas não davam bandeira. Nunca tive problema, nunca desconfiei de nada. Só o Carlinho consegue me deixar assim. Por que, doutora? Por que ele não se transforma num ogro verde e fedorento? Claro que ainda me interessaria por ele.

O cara não precisa ser bonito, mas tem que ter pegada. E tem que gostar de uma mulher só. Uma só, entendeu? Conheço uma porção de exemplos, doutora. Tem o Cyrano de Bergerac, aquele do narigão. Lembra dele? E do Lancelot, apaixonado pela rainha? Tem também o Romeu, maluco pela Julieta. O Bentinho, alucinado pela Capitu. O Titus, perdido de amor pela Berenice. Taí: boa lista. Três caras de pegada: Shakespeare, Machado e Racine.

Não estou confundindo autor com personagem. Quem disse que eram bonitos? Claro que não. O Romeu devia ter um monte de espinhas na cara. Só um cara muito feio fala em forma de verso. Dá um tempo, doutora! Vê se o Carlinho já fez alguma poesia pra mim?! Fez, Carlinho? Fez? Ele não escreve nem cartão de natal. Tá economizando pra amante, não tem outra explicação. Se fosse um filme, tocaria aquela musiquinha de mulher mal amada, tipo Empty garden ou Candle in the wind. Detesto o Elton John, doutora.

A realidade é diferente, eu sei. Não pense que vivo no mundo da fantasia. Gosto de cinema, leio romances, vou ao teatro. Mas conheço muito bem a vida real. Só que a minha vida real é isso aí. Real demais, doutora. Não tem a menor graça. A realidade me sufoca. O Carlinho também. Cadê meu príncipe? Fiquei com o sapo e não existe aquele truque do beijo. Na minha realidade, nada se transforma. E ainda vivo o papel de bruxa na história, com a maçã na palma da mão e uma verruga na ponta do nariz. Não sou Gata Borralheira nem Cinderela. Meu nome é Olga, a bruxa.

Tá rindo de quê, Carlinho?

5 comentários:

Lívia Corbellari disse...

não pude segurar o riso no final tambem rrsrs

Amanda de Andrade disse...

Adoro a Olga e o Carlinho! Outro dia mesmo estava ouvindo um casal "monologando" no ônibus e lembrei deles. Só que nesse caso, quem não parava de falar era o cara. hihihi... Beijos,
Amanda

Jacinta disse...

"Há um cachorro no DNA de cada homem"...sim, há: e nem precisamos de fazer o "teste". Mas com uma diferençazinha básica: nos cachorros, de 4 patas, ainda podemos confiar, rsrsrsrsrsrs.

Chris Araújo Angelotti disse...

Divertidíssimo!
Como sempre, adorei!

Agito Cult disse...

olá, estou seguindo vcs. o agitocult é um blog de jornalismo cultural. Segue a gente também, c vc se interessar =)