CRÔNICA PARA UM ENFERMO Fiquei sabendo, pela caneta da nossa eficiente Roberta, que o “nosso querido mestre encontra-se acamado”. E que acamou-se sob o nome de Emanuel Villanova. Fiquei preocupado e disparei alguns telefonemas para tentar saber de detalhes. Queria saber se era grave, se estava sendo bem assistido. Teria família ou não teria família?. Teria amigos ao seu lado? Queria levar-lhe alguma ajuda, por modesta que fosse. Eu já me encontrei em situação semelhante, isolado do meu mundo, esquecido em um hospital frio, cheirando a clorofórmio, sem uma palavra de consolo, sem alguém que me pudesse estender uma colher com uma sopinha quente, um biscoito mergulhado num café com leite. Sei como é duro sobreviver quando se está só e abandonado.
Não obtive resultado com os telefonemas. Fiquei absorto em meus pensamentos vendo a situação agravar-se e eu aqui sem fazer nada. Horrorizado. Finalmente pensei: mas se o Mestre teve forças para escolher um pseudônimo, o mal não deve ser assim tão grave! E passei a concentrar-me no verdadeiro problema. Como foi que a Roberta descobriu que Villanova era o mestre? Há quanto tempo já saberia? Quem mais saberia? Por que é que eu não sabia? Eu, que passei semanas debruçado sobre listas, tabelas e gráficos tentando descobrir o que era o que e quem era quem. Eu, que não prestava atenção nas aulas para observar sinais e gestos, analisar sorrisos, contrações de lábios, levantar de sobrancelhas, ligar o não sei quem com o não sei qual para descobrir qual seria o quem e quem seria o qual?
Vem a Roberta e , com um estalar de chicote, desvenda o mistério.
Mas vejo que fugi ao meu escopo. Minha intenção era levar conforto ao nosso querido mestre. Espero que ele já se encontre junto aos seus e que esteja junto a nós na próxima quinta feira. E com isto espero também ter atendido à sugestão da Roberta – que para mim é uma ordem- de preparar uma crônica inter-semanal e fazer com que o mestre se orgulhe da laboriosidade dos seus alunos. Brava, Roberta!
Severino MandacaruPS: para manter os leitores informados, meus alunos escrevem sob pseudônimos. Daí essa obsessão por tentar descobrir quem é quem. Detalhe: Severino erra em suas conclusões. Att, Felipe Pena
Quem sou eu
- Felipe Pena
- Escritor, psicólogo, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Literatura pela PUC-Rio, Pós-Doutor em Semiologia pela Université de Paris/Sorbonne III e ignorante por conta própria. Autor de doze livros, entre eles três romances, todos publicados pela ed. Record. Site: www.felipepena.com
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Crônica de hoje no Jornal do Brasil - O amor de Michel e Dilma
Era uma história de amor muito improvável. Tão improvável como só as verdadeiras histórias são. Um amor de claustro, amor furtivo, amor nas entrelinhas. Um amor construído na alcova, longe dos olhos de todos, para não chocar os incrédulos.
Dilma morava numa cidade periférica. Michel em uma grande metrópole. Ela tinha canelas finas e joelhos ralados pela vida no campo. Ele andava de terno, usava perfume caro e frequentava rodas literárias de qualidade duvidosa, embora se declarasse fã de Otto Lara Resende e outros mineiros ilustres, o que era uma afronta para os paulistas, seus fiéis correligionários.
Conheceram-se numa dessas redes sociais. Outra improbabilidade. Quantos amigos em comum são necessários para aproximar duas pessoas tão distantes? Mas o amor virtual é assim: surpreendente, arrebatador. Na rede, primeiro se conhece a letra para depois se conhecer a voz, como dizia o poeta gaúcho, um tal de Carpinejar.
“O amor virtual não é alienação. É envolvimento, amizade, compromisso. É pressentir o cheiro, formigar os ouvidos, seduzir devagar. Não há paixão que não ofereça mais do que foi pedido. Quem reclamava da ausência de preliminares deve comemorar o amor virtual. Nunca se teve tanta preliminar nas relações, rodeios, educação”, concluía o mesmo poeta.
E assim Dilma e Michel se apaixonaram e resolveram sair do virtual para o real. Ele se ofereceu em casamento no primeiro encontro. Porque o verdadeiro apaixonado não pede, se oferece. “Somos um casal perfeito”, ele disse. “Temos cumplicidade”, ela emendou.
Mas Dilma era comprometida, já tinha um pretendente, um bom partido. E que partido! Só não era maior que o partido de Michel, este também comprometido havia alguns anos. O que fazer? A intimidade permitiu críticas mútuas, conselhos, tentativas de solução.
- Dilma, minha querida. Esse teu partido tem estrela, é um sortudo. Mas não tem nada a ver contigo. Sempre achei que você deveria estar mais perto do sol.
- Era sob o sol que gostaria de estar, querido Michel. Mas o hábito me prende aqui. Pelo menos, ele não tem crises de ciúme como o teu partido. Não sei como ainda podes estar com alguém tão volúvel.
A essa altura, Dilma já ostentava as mudanças inerentes às mulheres que professam suas crenças e tentam ministrar suas vontades. As olheiras escondidas pela maquiagem francesa, as unhas pintadas de vermelho e um cabelo tão bonito que as invejosas juravam se tratar de uma peruca.
Michel também mudou. Emagreceu, tirou o terno e alugou uma cabana na serra para formalizar o pedido. Deitaram-se na rede estendida na varanda, depois de um banho demorado na piscina de água quente que ficava ao lado da sauna a vapor. Ele abriu o champagne. Ela estendeu as taças.
- Não precisamos de um bom partido. Precisamos um do outro, meu amor – disseram, ao mesmo tempo, como se fosse ensaiado.
E os próprios partidos se deram conta de que não tinham a menor importância diante daquela paixão. A eles restava apenas ceder o tempo para que os noivos pudessem chegar até o altar. Não que fossem esquecidos, pois ainda poderiam contar com a amizade sincera do casal, que seria generoso na hora de cortar o bolo da festa. Sem falar que o buquê teria endereço certo para que um deles pudesse se casar na oportunidade seguinte.
Durante a cerimônia, Dilma e Michel se ajoelharam diante do padre barbudo, que também era padrinho e tio da noiva, situação pouco comum nos casórios nacionais. Trocaram alianças depois de inúmeras viagens e aventuras pelo país e pelo mundo. E continuariam viajando após o casamento. Afinal, era pra isso que estavam juntos.
A cumplicidade os tornou ainda mais próximos. Uma volúpia incontida tomou conta deles assim que entraram na casa presenteada pelos padrinhos. Era a lascívia do poder, a libido da conquista mútua. Na alvorada, dedicavam-se a pequenos prazeres: morangos com chocolate, romané conti, brincadeiras infantis e longas conversas que entravam pela madrugada. Riam de tudo e de nada, como só os apaixonados fazem. Estavam juntos e se bastavam.
Se isso não é amor, o que mais pode ser?
· Felipe Pena é jornalista, escritor e professor da oficina de crônicas da Universidade Federal Fluminense.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Agenda das próximas palestras
sábado, 10 de outubro de 2009
Teoria do Jornalismo, por José marques de Melo
O livro do professor José Marques de Melo, decano do ensino de jornalismo no Brasil, reúne as principais reflexões do autor nos últimos trinta anos. Nas 278 páginas de Teoria do Jornalismo (identidades brasileiras), o leitor encontrará idéias publicadas na década de 1970, passando pela tese de livre docência defendida por Marques de Melo na ECA-USP em 1983 e desembocando em pesquisas recentes sobre o campo jornalístico.
As sistematizações propostas pelo professor contemplam todas as correntes de pensamento da área, enfatizando, como sugere o subtítulo, os autores brasileiros. Difícil encontrar um pensador nacional que não esteja citado na obra, cujo posfácio relaciona oito classificações distintas e articula as vertentes prática e acadêmica para indexar uma ampla bibliografia sobre o tema. Dessa forma, o livro oferece um imprescindível mapa dos estudos jornalísticos no país, divididos nas categorias exercício teórico, pragmatismo crítico, conhecimento empírico, conhecimento aplicado, estudos de caso, estudos comparados, reflexões coletivas e periódicos especializados.
Os quinze capítulos de Teoria do Jornalismo são um espelho dessa diversidade. Assim como é possível encontrar reflexões sobre a questão dos gêneros, também estão presentes estudos mais pontuais, como jornalismo feminino, educativo, comunitário e científico, só para citar alguns exemplos. José Marques não deixa, contudo, de enveredar pela questão ideológica, um de seus eixos mais aprofundados, propondo alternativas pluralistas e democráticas para o exercício profissional. Da mesma forma, destila com maestria sua visão sobre a natureza do jornalismo, refletindo sobre temas complexos, como a objetividade e a ética.
O livro é indicado não só para estudantes e pesquisadores, mas para todos aqueles que se interessam em compreender os fluxos e contrafluxos do bem mais valioso da sociedade pós-industrial, a informação, e, principalmente, seus mediadores, os jornalistas. Como expresso na quarta capa, Marques de Melo também pretende aproximar os futuros profissionais da realidade nacional, nutrindo a profissão de valores, utopias e conceitos que a renovem e a fortaleçam.
Nesse sentido, o autor parece de acordo com aqueles (entre os quais me incluo), que defendem que as várias tentativas de sistematizar a Teoria do Jornalismo já permitem a plena configuração da área como um campo específico do conhecimento humano. A disciplina deve ser incorporada aos currículos das escolas de jornalismo como um conjunto de metodologias e conceitos estudados a partir da investigação científica. Os diversos modelos de interpretação podem ser estruturados no âmbito de uma teoria unificadora, mesmo que sua fundamentação seja complexa e heterogênea.
Como já deixei registrado em artigos e em um livro homônimo, acredito que o teórico deve assumir a vocação para vidraça e atravessar a avenida, com a cara no vidro, esperando pelas pedras e pelas flores. Mais pedras do que flores. As pétalas da crítica só aparecem para o cânone estabelecido. A academia é um inverno perene. A pesquisa científica tem mil faces, é construída e reconstruída em teias de complexidade e suor.
A reflexão crítica sobre o jornalismo não é só pertinente, é imprescindível. Precisamos entender nossos problemas, buscar caminhos, encontrar soluções. Precisamos saber os motivos da crescente desconfiança do público. Precisamos enxergar nossos preconceitos e estereótipos. Precisamos reconhecer nossas próprias limitações como profissionais de imprensa, não só incentivando a pesquisa científica, mas participando dela. Ao defender uma teoria unificada como um campo de conhecimento específico, o objetivo é exatamente refutar a idéia de que os procedimentos jornalísticos constituem um saber autônomo e auto-suficiente. A efetivação de uma disciplina busca a interdisciplinaridade balizada. Ou seja, reconhece a multiplicidade de interpretações, mas aponta referências para as diversas análises.
A Teoria do Jornalismo deve assumir sua cientificidade, o que significa investigar evidências, produzir dados e construir enunciados passíveis de revisão e refutação. Para isso, no entanto, deve contar com a perene interconexão dos profissionais da redação e da academia. Não pode haver uma lacuna entre os jornalistas que se ocupam da produção e os que se encarregam da reflexão. A dicotomia é incoerente, não tem motivos para existir. Teoria e prática caminham juntas. O trabalho interligado é a única forma viável de discutir nossas questões.
Para fazer essa ponte, trabalhos como o de José Marques de Melo são vitais, imprescindíveis e perenes.
As sistematizações propostas pelo professor contemplam todas as correntes de pensamento da área, enfatizando, como sugere o subtítulo, os autores brasileiros. Difícil encontrar um pensador nacional que não esteja citado na obra, cujo posfácio relaciona oito classificações distintas e articula as vertentes prática e acadêmica para indexar uma ampla bibliografia sobre o tema. Dessa forma, o livro oferece um imprescindível mapa dos estudos jornalísticos no país, divididos nas categorias exercício teórico, pragmatismo crítico, conhecimento empírico, conhecimento aplicado, estudos de caso, estudos comparados, reflexões coletivas e periódicos especializados.
Os quinze capítulos de Teoria do Jornalismo são um espelho dessa diversidade. Assim como é possível encontrar reflexões sobre a questão dos gêneros, também estão presentes estudos mais pontuais, como jornalismo feminino, educativo, comunitário e científico, só para citar alguns exemplos. José Marques não deixa, contudo, de enveredar pela questão ideológica, um de seus eixos mais aprofundados, propondo alternativas pluralistas e democráticas para o exercício profissional. Da mesma forma, destila com maestria sua visão sobre a natureza do jornalismo, refletindo sobre temas complexos, como a objetividade e a ética.
O livro é indicado não só para estudantes e pesquisadores, mas para todos aqueles que se interessam em compreender os fluxos e contrafluxos do bem mais valioso da sociedade pós-industrial, a informação, e, principalmente, seus mediadores, os jornalistas. Como expresso na quarta capa, Marques de Melo também pretende aproximar os futuros profissionais da realidade nacional, nutrindo a profissão de valores, utopias e conceitos que a renovem e a fortaleçam.
Nesse sentido, o autor parece de acordo com aqueles (entre os quais me incluo), que defendem que as várias tentativas de sistematizar a Teoria do Jornalismo já permitem a plena configuração da área como um campo específico do conhecimento humano. A disciplina deve ser incorporada aos currículos das escolas de jornalismo como um conjunto de metodologias e conceitos estudados a partir da investigação científica. Os diversos modelos de interpretação podem ser estruturados no âmbito de uma teoria unificadora, mesmo que sua fundamentação seja complexa e heterogênea.
Como já deixei registrado em artigos e em um livro homônimo, acredito que o teórico deve assumir a vocação para vidraça e atravessar a avenida, com a cara no vidro, esperando pelas pedras e pelas flores. Mais pedras do que flores. As pétalas da crítica só aparecem para o cânone estabelecido. A academia é um inverno perene. A pesquisa científica tem mil faces, é construída e reconstruída em teias de complexidade e suor.
A reflexão crítica sobre o jornalismo não é só pertinente, é imprescindível. Precisamos entender nossos problemas, buscar caminhos, encontrar soluções. Precisamos saber os motivos da crescente desconfiança do público. Precisamos enxergar nossos preconceitos e estereótipos. Precisamos reconhecer nossas próprias limitações como profissionais de imprensa, não só incentivando a pesquisa científica, mas participando dela. Ao defender uma teoria unificada como um campo de conhecimento específico, o objetivo é exatamente refutar a idéia de que os procedimentos jornalísticos constituem um saber autônomo e auto-suficiente. A efetivação de uma disciplina busca a interdisciplinaridade balizada. Ou seja, reconhece a multiplicidade de interpretações, mas aponta referências para as diversas análises.
A Teoria do Jornalismo deve assumir sua cientificidade, o que significa investigar evidências, produzir dados e construir enunciados passíveis de revisão e refutação. Para isso, no entanto, deve contar com a perene interconexão dos profissionais da redação e da academia. Não pode haver uma lacuna entre os jornalistas que se ocupam da produção e os que se encarregam da reflexão. A dicotomia é incoerente, não tem motivos para existir. Teoria e prática caminham juntas. O trabalho interligado é a única forma viável de discutir nossas questões.
Para fazer essa ponte, trabalhos como o de José Marques de Melo são vitais, imprescindíveis e perenes.
sábado, 26 de setembro de 2009
Próximas palestras
Após a deliciosa maratona do café literário, na Bienal do Livro, sigo com a agenda de palestras.
Além de São João del Rey, vou para Fortaleza, Belo Horizonte, Campinas, Macapá e, provavelmente, para a Feira Panamazônica do Livro, em Belém.
Em dezembro, Paris e Lisboa.
Há ainda as palestras no Rio de Janeiro (UCAM, sobre o diploma de jornalismo; e UERJ, sobre psicanálise) e a oficina de roteiros que ministrarei na Estação das letras.Em breve, publico as datas de todos os eventos.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Artigo de sábado no Jornal do Brasil (foto da nossa mesa na Bienal - lotada)

O retorno à narrativa e o entretenimento como sedução pela palavra
A literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.
Usei as palavras acima em uma entrevista concedida a um jornal carioca no ano passado, quando fui injusto e deselegante com diversos autores brasileiros de ficção que não se encaixam no perfil descrito. Minha generalização, no entanto, foi retórica, estratégica. Tinha como objetivo levantar a discussão sobre a formação de um público leitor no país e contestar o predomínio de uma parte da crítica acadêmica que ainda vê na anacrônica experimentação o valor supremo do texto literário.
Como disse naquela entrevista, são os doutores universitários (e me incluo na lista) que prejudicam a formação de um público leitor no país. A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura.
É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico.
Isso não significa, no entanto, que não sejam boa literatura. Pelo contrário, alguns são obras de arte de relevante valor. Só não são acessíveis. Eu, por exemplo, leio esses autores, mas tenho doutorado em Literatura. Aliás, isso é parte do problema: a academia e uma elite leitora convencionaram que só tem valor aquilo que está na elipse, que força o leitor a encontrar sentido onde poucos conseguem enxergar. Por essa premissa, o que é fácil de ler não tem valor literário. E quem discorda dela é taxado de superficial.
Voltamos, então, à injustiça que cometi. Quero citar alguns autores que defendem o retorno ao compromisso narrativo e não se encaixam no perfil de herméticos. Um deles, o jovem Rodrigo Lacerda, deixou isso claro em entrevista recente a um jornal de Curitiba: “busco uma história bem contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor.”
A definição de Lacerda é primorosa e, como ele, há diversos escritores que enveredam pela mesma estratégia. Fernando Molica, Marcelo Moutinho, Tatiana Lévy, Homero Senna, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Ana Paula Maia, Livia Garcia-Roza, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues estão entre eles. E me perdoem todos aqueles que não mencionei.
Concordo que cada um escreva como pode, como diz o André De Leones. Mas alguns podem mais que os outros. O que proponho não é desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e justos) pelos cadernos de cultura do país. O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento.
Para os doutores da Academia, entreter significa passar o tempo. É um termo pejorativo, aviltante, usado para diminuir uma obra. Mas não é o que ele significa para quem se envolve com um livro e não consegue largá-lo. Em literatura, entretenimento é a sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo.
É esse o conceito de entretenimento que defendo para a ficção brasileira. Tenho a impressão de que todas as outras artes já o utilizam dessa forma, mas a literatura ainda parece padecer da velha dicotomia entre o erudito e o popular. O paradigma do biscoito fino é uma falácia de quase cem anos na cultura deste país. É o argumento da exclusão. São os brioches da nossa literatura, difundidos pelas Marias Antonietas encasteladas na linguagem empolada do hermetismo. Mas a guilhotina vai chegar.
Para quem for à Bienal do Livro neste sábado, o assunto será discutido ao meio-dia no café literário, em mesa mediada por mim e composta pelos escritores Luis Eduardo Matta e André Vianco. O que faremos? Contaremos histórias. Nas palavras de Eça de Queiroz, “contar uma história é a atividade mais generosa que um homem pode exercer”
· Felipe Pena é professor da UFF, doutor em literatura pela PUC-Rio e autor de dez livros, entre eles o romance “O analfabeto que passou no vestibular.” Em março, lança seu segundo romance pela Ed. Record.
A literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.
Usei as palavras acima em uma entrevista concedida a um jornal carioca no ano passado, quando fui injusto e deselegante com diversos autores brasileiros de ficção que não se encaixam no perfil descrito. Minha generalização, no entanto, foi retórica, estratégica. Tinha como objetivo levantar a discussão sobre a formação de um público leitor no país e contestar o predomínio de uma parte da crítica acadêmica que ainda vê na anacrônica experimentação o valor supremo do texto literário.
Como disse naquela entrevista, são os doutores universitários (e me incluo na lista) que prejudicam a formação de um público leitor no país. A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura.
É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico.
Isso não significa, no entanto, que não sejam boa literatura. Pelo contrário, alguns são obras de arte de relevante valor. Só não são acessíveis. Eu, por exemplo, leio esses autores, mas tenho doutorado em Literatura. Aliás, isso é parte do problema: a academia e uma elite leitora convencionaram que só tem valor aquilo que está na elipse, que força o leitor a encontrar sentido onde poucos conseguem enxergar. Por essa premissa, o que é fácil de ler não tem valor literário. E quem discorda dela é taxado de superficial.
Voltamos, então, à injustiça que cometi. Quero citar alguns autores que defendem o retorno ao compromisso narrativo e não se encaixam no perfil de herméticos. Um deles, o jovem Rodrigo Lacerda, deixou isso claro em entrevista recente a um jornal de Curitiba: “busco uma história bem contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor.”
A definição de Lacerda é primorosa e, como ele, há diversos escritores que enveredam pela mesma estratégia. Fernando Molica, Marcelo Moutinho, Tatiana Lévy, Homero Senna, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Ana Paula Maia, Livia Garcia-Roza, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues estão entre eles. E me perdoem todos aqueles que não mencionei.
Concordo que cada um escreva como pode, como diz o André De Leones. Mas alguns podem mais que os outros. O que proponho não é desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e justos) pelos cadernos de cultura do país. O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento.
Para os doutores da Academia, entreter significa passar o tempo. É um termo pejorativo, aviltante, usado para diminuir uma obra. Mas não é o que ele significa para quem se envolve com um livro e não consegue largá-lo. Em literatura, entretenimento é a sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo.
É esse o conceito de entretenimento que defendo para a ficção brasileira. Tenho a impressão de que todas as outras artes já o utilizam dessa forma, mas a literatura ainda parece padecer da velha dicotomia entre o erudito e o popular. O paradigma do biscoito fino é uma falácia de quase cem anos na cultura deste país. É o argumento da exclusão. São os brioches da nossa literatura, difundidos pelas Marias Antonietas encasteladas na linguagem empolada do hermetismo. Mas a guilhotina vai chegar.
Para quem for à Bienal do Livro neste sábado, o assunto será discutido ao meio-dia no café literário, em mesa mediada por mim e composta pelos escritores Luis Eduardo Matta e André Vianco. O que faremos? Contaremos histórias. Nas palavras de Eça de Queiroz, “contar uma história é a atividade mais generosa que um homem pode exercer”
· Felipe Pena é professor da UFF, doutor em literatura pela PUC-Rio e autor de dez livros, entre eles o romance “O analfabeto que passou no vestibular.” Em março, lança seu segundo romance pela Ed. Record.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Programação de Sábado na Bienal do Livro
Meio-dia: no café literário com André Vianco e Luis Eduardo Matta. 16 horas: no estande do Sindicato dos professores (Sindpro), falando sobre universidades e sobre o romance "O analfabeto que passou no vestibular."
Vocês são meus convidados.
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